Acredito que haja um Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes em cada um de nós. Quem de nós não fantasia? Enquanto Quixote é sonhador e fantasioso, Sancho Pança, seu fiel escudeiro, é realista e sério. Mas, na medida em que o relato do livro avança ele vai se perdendo cada vez mais, e, aos poucos, vai aceitando as alucinações delírios do cavaleiro. Poder-se-ia, então, dizer que Sancho Pança é o povo, que decidiu acompanhar Dom Quixote após este ter prometido que lhe daria o governo de uma ilha. Aliás, prometer picanha com cervejinha não é mera coincidência.
Mesmo pobre, continua fiel a Dom Quixote como no ditado dos cavaleiros, parafraseado em ” o brasileiro nunca foge a uma luta; nunca desiste”. Sancho nunca fugiu de Dom Quixote. Nunca lhe faltou com o respeito, sendo sempre fiel. Normalmente andava em cima de um burro, junto de Dom Quixote, que andava em cima do seu cavalo, o Rocinante, o que marca umas das evidências do contraste dos personagens. O governante em cima do luxo e o pobre em cima do burro e miséria.
Outra característica marcante — talvez a mais marcante — é o costume que Sancho, leia-se o povo, tem de repetir os incontáveis ditados de Dom Quixote a todo momento, lançando-os a torto e a direito, sem observância de adequação ao contexto do diálogo ou do momento atual como a fantasia da “Tentativa de Golpe de Estado”, indiscriminadamente, chamando os seus inimigos de “golpistas” e “terroristas”.
Assim, o povo tal como Sancho, faz parte da história e a alimenta para o bem e para o mal.
Participando de todas as suas façanhas, Sancho tenta argumentar com Dom Quixote, que tem uma mente imaginativa, enquanto lê romances de cavalaria. Sancho é sensato, calmo, moderado e protege o seu mestre, todavia é um camponês rude, elementar, de baixa origem, imprudente, vulgar, guloso, marmota, mas fiel ao seu senhor. É apresentado como “um homem bom, mas, como dizem, com pouco chumbo no cérebro”. Esta é a imagem que temos à primeira vista de Sancho Pança e o povo, mas aos poucos descobrimos que a sua psicologia é mais superficial e distópica, e de profunda não há nada, embora acabe por ser contaminado de vez pelas palavras e pela mentalidade do seu mestre.
Eu me questiono se a voz do povo é a voz de Deus. Às vezes, está mais para a sua sepultura.
Paulo Rebelo, médico escritor e poeta.
P.S. A ideia imediata do texto ocorreu a partir de uma pesquisa da QUEST, veiculada pela GLOBO em que, surpreendentemente, a popularidade de Lula em defesa da soberania nacional teria subido após o confronto com o tarifaço do TRUMP. A inspiração do texto bem elaborado na figura de Sancho Pança foi enriquecida por partes de crítica obtida na busca SANCHO PANÇA na Internet.