Fala, memória — porque o Brasil insiste em tropeçar nas mesmas botas e depois jura que foi surpresa. Fala, porque a história não é um museu inofensivo: é um aviso em letras maiúsculas para quem ainda flerta com o abismo.
O golpe de 1964 não caiu do céu nem brotou do acaso. Foi gestado no medo fabricado, no anticomunismo conveniente, na tutela militar que desde a Proclamação da República rondava o poder civil como quem vigia uma herança que julga sua. Derrubou-se um presidente eleito em nome da “ordem”, palavra elástica que sempre serviu para justificar o silêncio imposto aos outros. Instalou-se um regime que prometia transição e entregou permanência; prometia moralização e produziu arbítrio; prometia segurança e distribuiu medo.
Vieram os Atos Institucionais — uma sequência de golpes dentro do golpe. Cada AI arrancava um pedaço da Constituição, até que o Estado de Direito se tornasse uma peça decorativa. O AI-5 foi o ápice da degradação: a suspensão do habeas corpus, o fechamento do Congresso, a censura escancarada, a tortura oficializada. Não era exceção: era método. Não era excesso: era projeto. O Estado assumiu o porão como política pública e a mentira como linguagem administrativa.
Nas universidades, a ditadura declarou guerra ao pensamento. Professores foram demitidos, aposentados compulsoriamente, presos; estudantes, expulsos e perseguidos. O famigerado artigo 477 não foi apenas um dispositivo disciplinar: foi uma sentença contra o futuro. Proibia matrículas, interditava trajetórias, criminalizava a curiosidade. A ditadura sabia — sempre soube — que ideias são mais perigosas que armas quando confrontam privilégios.
E, ainda assim, o Brasil se ergueu. Não por concessão da farda, mas por pressão da sociedade. Greves, movimentos estudantis, imprensa resistente, advocacia, artistas, famílias de mortos e desaparecidos — o país civil empurrou o regime para fora da cena. A ditadura, exaurida, foi obrigada a respirar a doce reverência do poder civil. Não houve vitória moral dos quartéis; houve retirada forçada. A democracia não foi um presente: foi conquista.
O problema é que a memória curta cobra juros. Décadas depois, o país assistiu à volta ostensiva da tutela militar sob a máscara do voto. No governo de Jair Bolsonaro, a ocupação do Estado por militares tornou-se política deliberada. Milhares de oficiais da ativa e da reserva passaram a comandar áreas civis sem preparo técnico, como se administrar uma república fosse extensão do quartel. A arrogância substituiu a competência; a lealdade ideológica, o saber; o improviso, o planejamento. O resultado foi um Estado travado e uma crise sanitária tratada com negacionismo, desprezo pela ciência e culto à bravata.
O desastre não foi acidente. Foi continuidade. A mesma desconfiança da política, o mesmo desprezo pelas universidades, a mesma hostilidade à imprensa, a mesma nostalgia autoritária. Quando derrotado nas urnas, o bolsonarismo flertou com a ruptura, conspirou contra a legalidade e apostou na desordem como atalho — como se a história não tivesse ensinado nada. Ensinou. E cobrou.
Hoje, mesmo com as viúvas do autoritarismo pedindo a volta do que nunca foi bom, a régua precisa ser clara e inegociável: Democracia. Não há “atalho patriótico” fora dela, não há “intervenção corretiva” que não seja regressão, não há saudade legítima de um regime que prendeu professores, expulsou estudantes, censurou jornais e torturou cidadãos.
Fala, memória, para lembrar que o Brasil já pagou caro por confundir força com virtude. Fala, para dizer que a democracia é imperfeita — e por isso mesmo humana — enquanto a ditadura é eficiente apenas em produzir silêncio, dor e atraso. Fala, sobretudo, para alertar: quem relativiza o passado autoritário e flerta com a volta desses tempos sombrios, prepara o terreno para repeti-lo.
A democracia deve ser sempre a nossa régua.
Todo o resto é desvio — e a história não absolve reincidentes!
Inverno de 2026

