As entrevistas com candidatos à Presidência da República deveriam constituir um dos momentos mais nobres do processo democrático: a oportunidade de submeter aqueles que pretendem governar o país ao escrutínio público, confrontando biografias, decisões, contradições e, sobretudo, projetos para o futuro. O que se observa, entretanto, em determinados formatos televisivos, inclusive nas sabatinas da Rede Globo, é uma preocupante inclinação para transformar a necessária contundência jornalística numa espécie de interrogatório inquisitorial, em que o candidato parece ocupar previamente o banco dos réus. Questionar fatos controversos, denúncias, alianças e responsabilidades é dever da imprensa; outra coisa é organizar a entrevista sob a lógica permanente da suspeita, da interrupção e do constrangimento. Hannah Arendt compreendeu a política como o espaço da palavra e da ação entre diferentes; quando esse espaço deixa de produzir argumentos e passa a produzir apenas antagonistas, perde-se uma dimensão essencial da democracia.
O problema torna-se ainda mais grave porque a imprensa não é simples espectadora da arena pública: ela participa da construção daquilo que a sociedade considera relevante. A teoria do agenda-setting, desenvolvida por Maxwell McCombs e Donald Shaw, demonstrou precisamente a extraordinária capacidade dos meios de comunicação de influenciar a agenda sobre a qual o público pensa e debate. Se grande parte de uma entrevista presidencial é consumida pela exploração de episódios negativos, acusações pessoais e embates destinados a produzir frases de impacto, sobra pouco espaço para questões elementares: qual é a política econômica do candidato? Como pretende enfrentar desigualdade, violência, precariedade da saúde, deficiências educacionais, crise fiscal, mudanças climáticas e os desafios tecnológicos? Pierre Bourdieu, em sua crítica à televisão, advertiu para os efeitos da busca por audiência, velocidade e espetacularização sobre a qualidade do debate público. Quando a política é convertida em espetáculo de confronto, o cidadão pode até receber entretenimento, mas recebe menos informação substantiva para decidir seu voto.
Há, ademais, uma perigosa simbiose entre esse jornalismo de confronto e uma classe política que há anos substitui programas por agressões. O candidato ataca o adversário; o adversário responde; as redes sociais amplificam; os programas repercutem; e a entrevista seguinte começa justamente pela controvérsia produzida no ciclo anterior. Forma-se uma indústria da indignação. Jürgen Habermas concebeu a esfera pública democrática como ambiente de formação racional da opinião, no qual argumentos possam ser confrontados publicamente. O jornalismo deveria contribuir para essa racionalidade crítica, não para sua decomposição. Isso não significa entrevistar candidatos com luvas de seda nem abandonar perguntas incômodas. O jornalista norte-americano Walter Lippmann já alertava para a complexa relação entre opinião pública e representação da realidade. Justamente por deter enorme poder de mediação, a imprensa deve distinguir fiscalização de execração, contraditório de hostilidade e investigação de julgamento antecipado. Pergunta dura é jornalismo; humilhação não é. Contraditar uma mentira é obrigação profissional; construir deliberadamente uma arena destinada a “moer” reputações é outra coisa.
O Brasil precisa romper esse círculo vicioso da política da dilaceração. Se reclamamos, corretamente, de candidatos que preferem destruir adversários a apresentar propostas, seria contraditório aceitar que os meios de comunicação reproduzissem exatamente a mesma lógica. Uma entrevista presidencial deveria permitir que o eleitor terminasse conhecendo melhor não apenas os defeitos e controvérsias do entrevistado, mas aquilo que ele pretende fazer com o país. Que seja perguntado sobre denúncias, responsabilidades, incoerências e passado — sem indulgência. Mas que seja igualmente obrigado a explicar metas, prioridades, orçamento, governabilidade e soluções concretas. Karl Popper lembrava que a grande questão política não é descobrir governantes perfeitos, mas construir instituições capazes de controlar o poder e corrigir maus governos. O jornalismo é uma dessas instituições informais de controle. Sua grandeza, porém, está na independência e no rigor, não no espetáculo da destruição. Democracias amadurecem quando candidatos são submetidos ao contraditório, propostas são comparadas e cidadãos recebem informação suficiente para escolher. Quando a entrevista vira tribunal e a audiência substitui a razão pública, todos podem sair com suas reputações feridas — inclusive o próprio jornalismo.
Jornalismo ou inquisição? A política no banco dos réus

