Eu tenho dito que cada palavra é alguma coisa profunda e fluida, que vem desde a infância, que faz parte da nossa própria vida, que tem cheiro; tem sabor e é vivida a cada dia. É uma longa experiência sensorial, emocional e intelectual. Interessante como a língua é um ser vivo, mutante. As ruas, a literatura e a cultura em geral dão dinâmica ao idioma: criam novas palavras e expressões, tornam outras arcaicas e o transformam constantemente.
Eu tenho tido algumas experiências bem divertidas com a língua portuguesa falada e isso passou a me interessar mais. Fiquei mais atento às conversas de rua, conversas de pessoas com uma linguagem mais regional e livre, às expressões informais, aos vícios de linguagem e até mesmo aos estrangeirismos.
Como de costume, eu fui passar uma tarde em uma praça em feira de Santana na Bahia. Lá, havia pessoas de diferentes lugares daquele belíssimo e rico Estado. E logo em seguida, um grupo de jovem ficou conversando perto de mim, como não poderia deixar de ser, resolvi ouvir a conversa deles, pois sabia que iria ouvir coisas interessantes.
Não demorou muito para alguém dizer:
- Olha aí, Rei! A senhora que nos recebeu no condomínio é uma “boa bucha”…
Então eu falei para mim mesmo: - Bucha de canhão, Bucha para cano, Bucha de espingarda, bucha para tampar algo. Ela era boa para que?
Depois fui entender que o sentido era outro e que aquele termo usado, era um termo muito negativo e era dito para alguém que fez algo que desagradou que dissera a frase. Tipo alguém que se esqueceu de alguém ou deixou de fazer algo para esse pessoa.
Um dos rapazes falou: - Meu chegado, ontem foi àquela festa, a qual minha amiga tinha me convidado e aproveitei o que pude.
Queixei uma menina a noite toda… - Opa!!! Como queixou a menina? Ninguém fez nada com esse moleque. Que coisa de valor ela tinha?
Logo em seguida ele continuou: - Depois, nós saímos da festa e rolou muitos beijos e abraços e já estamos ficando.
Aí que fui entender que o termo “Queixar alguém” significava “Paquerar” a pessoa. Diferentemente daqui.
Opa! Acho que alguém queixou a minha carteira, vai ver que esse bandido é um queixo miserável.
Nessa hora, passou um rato e um dos rapazes disse:
-Ah, se eu tivesse com o meu badogue, eu não erraria esse alvo, seria uma badogada e tanto.
É lógico que logo saquei ser uma baladeira e já veio rapidamente à minha mente aquela baladeira atada as sextas olhando a cesta do Lu Moraes depois de ter tirado aquela sesta. Percebi também que eu não poderia chamar alguma mulher que gosta de rede de badogueira, pois eu estaria chamando-a de quenga. Pode?
Um dos amigos disse para o outro: - Hoje vou tirar a noite e vou comer água, não quero ver a noite passar.
- Oh, rei! Não vá comer muita água, pois amanhã tem o Baba.
Fiquei pensando comigo mesmo: - Comer água? Baba? Eu estou boiando nessa conversa.
Então passou um homem de meia idade muito embriagado, sem saber se ia para direita ou para a esquerda, para frente ou para trás. Então um deles me olhou e disse: - Esse deve ter comido água a noite toda, que até perdeu a bússola.
Eu comecei a rir, pois ali eu entendi o significado de comer água, pois o cidadão vinha cercando o frango. Ou como dizemos por aqui: mamado.
Passei algum tempo para entender que; Dá-se Banca não era receber de graça qualquer mesa ou acento, mas sim reforço escolar.
Antes de eu ir embora, um dos amigos chegou com uma bola de couro e disse para ele: - Olhem! Acabei de comprar para o Baba de amanhã, essa aqui é arretada.
Agora saquei o que era bater um Baba, mas eu não ousaria bater esse Baba, pois com o preparo físico que estou com certeza eu iria ficar na baba.
Saí Dalí e fui tomar água (não comer água) e depois tomar um menorzinho.