Confesso ao leitor que, nos últimos dias do ano, enquanto as ruas se enchiam de luzes artificiais, músicas repetidas e promessas ligeiras, fui tomado por um incômodo silencioso. Algo que não se resolvia com votos de prosperidade nem com a contagem regressiva televisionada. Era a sensação de que o tempo, esse velho artesão invisível, exigia mais de mim do que um brinde apressado ou um desejo protocolar de “feliz ano novo”.
Há algo profundamente humano no fim de um ano. Muito além da virada do calendário, dos fogos e dos votos repetidos, existe um movimento silencioso que nos atravessa. O tempo não muda apenas no relógio — ele muda dentro de nós. Mesmo aqueles que dizem não se importar sentem, ainda que de forma difusa, que algo se fecha e algo se abre. O Ano Novo é, antes de tudo, um gesto simbólico da existência, uma pausa coletiva para respirar, olhar para trás e, sobretudo, seguir adiante.
Não é por acaso que todas as culturas, em diferentes épocas, criaram ritos de passagem ligados ao tempo. O ser humano precisa marcar os começos porque precisa acreditar que é possível recomeçar. Carl Gustav Jung lembrava que o inconsciente fala por símbolos, não por estatísticas. O Ano Novo é um desses símbolos universais. Ele não promete milagres automáticos, mas oferece algo talvez ainda mais valioso, qual seja, a chance de renovar a consciência.
O ano que se despediu, como todos os outros, trouxe perdas. Pessoas queridas partiram, deixando vazios que nenhuma palavra preenche completamente. Mas é preciso dizer algo com clareza, especialmente neste momento de passagem, a memória daqueles que se foram não é apenas dor, é também herança. Jung nos ensinou que a morte não representa apenas um fim biológico, mas um poderoso símbolo de transformação psíquica. Quando atravessado com coragem, o luto não nos diminui; ele nos aprofunda.
Honrar quem partiu não significa permanecer preso à tristeza. Significa permitir que essas ausências nos tornem mais atentos à vida, mais sensíveis ao tempo, mais cuidadosos com os vínculos que permanecem. A lembrança dos que se foram nos ensina algo essencial, que o que realmente importa não é a quantidade de dias, mas a qualidade do sentido que damos a eles.
E aqui começa a dimensão mais esperançosa desse tempo de virada. Porque, se o ano carrega perdas, ele também carrega aprendizados. Cada dificuldade atravessada, cada dor elaborada, cada queda superada constrói silenciosamente algo em nós. A maturidade não nasce do conforto, mas da travessia. E toda travessia prepara o terreno para um novo começo mais consciente.
Vivemos, é verdade, um tempo de desafios coletivos. O mundo enfrenta crises sociais e morais que não podem ser negadas. Jung já alertava que sociedades que perdem o contato com seus símbolos profundos tendem ao desequilíbrio. Quando deixamos de perceber a natureza como algo vivo e passamos a tratá-la apenas como recurso, algo essencial se rompe — fora e dentro de nós.
Mas reconhecer a crise não é o mesmo que desistir. Pelo contrário, toda tomada de consciência é, em si, um ato de esperança. Ainda que lentamente, algo começa a se reorganizar. A história humana não avança em linha reta; ela se move por ciclos, rupturas e reconstruções. O que importa é que estamos aprendendo, e aprendizado é sempre uma forma de futuro.
A literatura de Gabriel García Márquez nos ajuda a compreender essa dinâmica. Em suas histórias, o tempo não é apenas cronologia; é densidade. Em Macondo, os mortos não desaparecem porque fazem parte da memória viva. Eles não paralisam os vivos; ao contrário, ensinam-nos a continuar. Márquez compreendia que lembrar não é ficar preso ao passado, mas dar a ele um lugar digno para que o presente possa avançar.
Em Memória de minhas putas tristes, a velhice surge não como um fim estéril, mas como um tempo tardio de revelação. Mesmo às portas da morte, o amor ainda é possível. E essa talvez seja uma das mensagens mais luminosas que a literatura já nos ofereceu, a de que enquanto há consciência, há possibilidade. Enquanto há afeto, há sentido.
Essa é uma lição preciosa para o Ano Novo. Vivemos em uma civilização que muitas vezes associa esperança à ingenuidade. Como se ser lúcido fosse sinônimo de cinismo. Mas a verdadeira esperança não ignora a realidade — ela a enfrenta com coragem. Ela não promete facilidades; ela convoca responsabilidade.
Jung afirmava que tornar-se consciente de si mesmo é um processo exigente, mas libertador. É justamente essa consciência que nos permite começar de novo sem repetir automaticamente os mesmos erros. Um novo ano não precisa ser uma fuga do que passou; ele pode ser um aperfeiçoamento do que aprendemos.
Talvez seja por isso que o Ano Novo continue nos emocionando, apesar de toda descrença moderna. No fundo, ele nos lembra que não estamos condenados a ser sempre os mesmos. Que podemos rever escolhas, reconstruir vínculos, reorganizar prioridades. Que podemos ser mais gentis, mais atentos, mais responsáveis — não por obrigação moral, mas por amadurecimento humano.
Ao iniciarmos um novo ciclo, somos convidados a firmar um pacto silencioso conosco mesmos. Um pacto com a vida. Reconhecer que não controlamos tudo, mas somos responsáveis por nossas atitudes. Que não podemos salvar o mundo sozinhos, mas podemos não piorá-lo. Que não evitaremos todas as dores, mas podemos aprender a atravessá-las com dignidade.
Os amigos que partiram continuam presentes de outra forma. Eles vivem naquilo que nos ensinaram, nos gestos que herdamos, nos valores que incorporamos. Como nas histórias de Márquez, eles não nos impedem de seguir, eles nos acompanham. E essa companhia, quando acolhida, nos fortalece.
Que o novo ano seja, então, mais do que uma promessa genérica de felicidade. Que seja um processo consciente de crescimento. Que seja um movimento de individuação, no sentido mais profundo que Jung lhe deu, tornar-nos inteiros. Menos fragmentados pelo medo. Menos endurecidos pela pressa. Mais humanos na convivência. Mais responsáveis nas escolhas.
O tempo não nos pede perfeição. Ele nos pede presença. Não nos exige heroísmo, mas coerência. Não nos cobra grandiosidade, mas sentido. E isso está ao alcance de todos.
Que o Ano Novo, portanto, avance não como um milagre externo, mas como uma decisão interna. A decisão de cuidar melhor do que importa. De ouvir mais. De destruir menos. De amar com mais consciência. De viver com mais verdade.
Porque, no fim, só atravessa o tempo quem aprende a transformá-lo em aprendizado. E só recomeça de verdade quem compreende que a esperança não é ilusão, é uma forma madura de coragem.

