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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Rogerio Reis Devisate > O “CONSELHO DE PAZ” DE TRUMP SURGE SOBRE OS ESCOMBROS DA ONU
Rogerio Reis Devisate

O “CONSELHO DE PAZ” DE TRUMP SURGE SOBRE OS ESCOMBROS DA ONU

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 25 de janeiro de 2026 às 01:48
Por Rogerio Reis Devisate 3 horas atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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Quando escolhi este tema para escrever, refletia se o Conselho de Paz que, hoje, 22.1.2026, foi lançado por Trump, sucederia à ONU.
Qual não foi a minha surpresa ao relembrar que o ano de 2023 foi o que teve mais conflitos armados no mundo desde o fim da 2a Guerra Mundial e que, naquele ano, eu já havia previsto a reta final da ONU quando, no dia 04.11.2023, no artigo intitulado “A ONU, O CONSENSO DISTANTE E O VETO DO VETO” (publicado no jornal A Gazeta do Amapá, 04.11.2023), escrevi que:

”Se a ONU não conseguir construir solução e habilmente vencer o momento, possivelmente estará assinando o seu epitáfio, pelo esvaziamento do seu elevado papel, como ocorreu com a Liga das Nações, que não conseguiu evitar a 2ª Guerra Mundial.”
De fato, parece que o novel Conselho de Paz tomará o lugar da ONU, não por uma vontade isolada e sim por complexas condições existenciais.
Antes de mais nada, é necessário relembrar que a ONU não nasceu do acaso, tendo surgido sobre os escombros da Liga das Nações, criada em 1920, após a 1ª Guerra Mundial. Contudo, diferentemente do idealizado e diante das dificuldades do mundo real, a Liga não conseguiu evitar o início da 2a Guerra Mundial, do mesmo modo que a ONU, agora, já não dá conta do mundo moderno.
Antes de avançar, devemos relembrar as certas circunstâncias históricas em torno do surgimento da ONU e do fim da Liga das Nações, para entender o surgimento deste novel Conselho de Paz. Podemos começar com a frase de Stalin, o todo poderoso ditador da União Soviética, que entendia que a força bruta era fundamental para derrubar os seus adversários, a ponto de, ironizando, perguntar ao presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, sobre a quantidade de divisões militares que tinha o Papa.
Stalin considerava fundamental a fragmentação do poder alemão, para que as suas fronteiras orientais jamais voltassem a ameaçar os soviéticos e, por isso, não tinha por negociável nenhum dos territórios ocupados pelo Exército Vermelho. Stalin queriam um “cordão não hostil” para proteção da União Soviética. Parte desta filosofia vemos em Putin, com sua oposição à filiação de alguns países vizinhos à OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte. Este é um bom exemplo de como é importante conhecer a História – que se repete – e as razões sutis em torno dos grandes momentos da humanidade.
Aqueles movimentos de Stalin demarcaram um momento histórico fundamental, porquanto o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, ficou desnorteado pelas modificações do mapa da Europa Oriental em decorrência das ações da União Soviética na Polônia, Romênia e Tcheco-Eslováquia. Os soviéticos não agiam por justiça, mas por pragmática expansão territorial e ganho de novas fronteiras. Em grande resumo, Roosevelt, Churchill e a Carta do Atlântico não queriam que se repetissem os erros fatais do Tratado de Versalhes, que pôs fim à 1a. Guerra Mundial e, para isso, consideravam fundamental que os acordos, envolvendo territórios ocupados, tivessem o consentimento das respectivas populações.
As forças em movimento eram imensas e, por isso, somente a união dos grandes 5 vencedores (EUA, França, Inglaterra, União Soviética – hoje Rússia – e China) da 2a Guerra Mundial poderia construir uma certa estabilidade global. Para isso e por isso, esses 5 países têm, na ONU, o poder de veto. Qualquer um deles, sozinho, pode vetar uma decisão da ONU, ainda que esta tenha ampla adesão internacional… De fato, o “veto” é a radiografia da ONU!
Todavia, não podemos nos esquecer de que a ONU surgiu da necessidade dos norte-americanos em tê-la como instrumento para a sua própria segurança. Essa causa remota é fundamental para se entender como o jogo funciona. A partir do momento em que o colegiado de apoio se enfraquece, outra causa de contenção precisa ser encontrada, notadamente quando o isolacionismo não é viável. É por falar na segurança dos EUA que chegamos, assim, agora, ao que se avizinha, com a sementeira do novel Conselho de Paz advogado por Donald Trump.
Para começar, Trump será o seu presidente, por tempo indefinido. Isso já indica que o colegiado se reunirá em torno da sua liderança e da influência do país que preside. Só com essa manobra o presidente Trump já reposicionou os Estados Unidos no centro das decisões mundiais.
Ademais, com a sua criação, hoje, dia 22 de janeiro de 2026, é inegável que o Conselho de Paz nasce forte e influente, globalmente, inclusive pelo fato de que, em 21.1.2026, Trump marcou sua posição de liderança quando, em Davos, disse “Não tenho que usar a força. Não quero usar a força e não vou usar a força”. Essa fala só tem sentido pleno quando parte da boca de quem tem toda a potência e força do seu lado. Algo que defino como “só quem pode fazer a guerra pode fazer a paz”.
A fala reforça a posição de Trump para o diálogo… para alívio imediato dos incautos e, também, para ser compreendida, no seu alcance e dimensão, nos grandes salões das tomadas de decisão, onde gravitam os demais líderes globais e os seus diplomatas e conselheiros.
Parece, também, que o Conselho teria uma postura um pouco mais ativa do que a ONU, com decisões executivas mais assertivas. Seria algo como o reconhecimento de que é a presença da força que tem a capacidade de fazer com que sejam fielmente cumpridos os tratados assinados pelas nações.
Isso pode incomodar a alguns, embora talvez seja o remédio adequado aos novos tempos, como instrumento para frear certas possíveis posturas belicistas, racistas, expansionistas e terroristas, pois é crível que a fala tem que ser compreendida pelos seus destinatários, muitos dos quais seriam verdadeiros senhores das guerras. De fato, não se pode falar em “flores” e discursos diplomáticos pacíficos com quem só quer a guerra e o sangue, o que foi muito bem exemplificado na História com o episódio do descumprimento, por Hitler, do acordo feito com Neville Chamberlain, então Primeiro-Ministro do Reino Unido (Inglaterra), de 1937 a 1940. Este fato levou à sua queda e a ascenção de Winston Churchill.
Churchill, então, em 1940, teria dito que aquela guerra destruiria a ordem vigente no mundo e decidiria se seria a Alemanha (de Hitler) ou a Inglaterra que teria a soberania no porvir europeu. Ele tinha a exata noção do desafio e do que estava em jogo e preparou, com os Aliados, a resposta militar à Alemanha e ao Eixo (com a Itália e o Japão) – que foram derrotados.
Voltando à ONU e ao Conselho de Paz, fica evidente que esses dois colegiados não poderão conviver. Com o tempo, um será a negativa do outro. O surgimento do Conselho de Paz e a sua existência devem minar a força e a energia vital da ONU. Isso não significa que a ONU não tivesse importância ou não tenha tido boas vitórias pela manutenção da paz e da ordem. A questão é que as forças estão sempre em movimento e a humanidade não está congelada no seu desenvolvimento. Aliás, os seres humanos sempre viveram guerreando e a história registra episódios múltiplos e o redesenho frequente dos mapas. Somente o futuro poderá julgar o presente e nos dizer o que será da ONU e do Conselho de Paz que surge.

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