Bolsonaro passou anos vendendo brutalidade como virtude. Transformou misoginia em performance, homofobia em senha de pertencimento e grosseria em identidade política. Era o “mito” do coice: quanto mais baixo, mais a claque aplaudia. Não era distração, era método. O deboche era programa. A crueldade era linguagem.
E quando o país parou para assistir ao impeachment de Dilma, ele não votou — ele cuspiu na história. Ao dedicar seu voto ao coronel-torturador Brilhante Ustra, Bolsonaro assinou com tinta grossa a sua preferência moral: escolheu o porão como símbolo e o carrasco como homenagem. Ali ficou claro que ele não era só um político agressivo: era um homem que flertava com o lado mais abjeto do poder e chamava isso de coragem.
Depois veio a pandemia, e o Brasil viveu sua procissão de caixões. Milhares viraram estatística, famílias enterraram silêncio, a vida virou medo. E o que Bolsonaro ofereceu? Imitou. Ironizou. Respondeu com frases secas. Fez pouco. Gargalhou do desespero alheio como se governar fosse um ringue e morrer fosse fraqueza. Ali ele mostrou o que sempre foi: um homem incapaz de reconhecer humanidade onde não há vantagem política.
Mas o tempo tem uma pedagogia que não pede autorização. A biologia cobra. A realidade cobra. E o destino adora pegar valentão pela gola. O mesmo Bolsonaro que queria ver Lula na Papuda, que desejava cadeia como troféu contra o adversário, agora faz o caminho inverso — só que sem honra e sem compostura. O sujeito que berrava “bandido bom é bandido morto”, que se comportava como juiz de rua, carrasco de microfone, hoje se agarra ao vocabulário da clemência: não pede Justiça, pede anistia. Não pede verdade, pede indulgência. Não pede direito, pede atalho. É impressionante como a valentia evapora quando o alvo deixa de ser o outro.
O “ex-atleta” virou peça de autopiedade. O homem que se vendia como aço agora parece feito de desculpa. O personagem que chamava ministro de “canalha” hoje se retorce diante do peso de uma condenação que pode ser exemplar. Ele passou anos estimulando o país a amar a punição — desde que fosse para os outros. Agora descobriu que punição não é meme. Não é bravata. Não é vídeo de internet. Punição é porta que fecha.
E aqui mora a ironia histórica mais cruel: quem defendeu tortura não tem autoridade para pedir misericórdia. Quem exaltou o porão não pode reclamar do frio institucional. Quem elogiou o DOI-CODI, afogado em sangue e sevícia, não pode pedir ao país que seja delicado quando a consequência chega. Ele não deu ouvidos aos torturados. Não respeitou os mortos. Não se comoveu com os que saíram quebrados física e moralmente da máquina de moer gente. Pelo contrário: transformou aquilo em saudação.
A encruzilhada moral agora é dele. E é simples: quem passou a vida inteira desprezando a condição humana dos outros não pode exigir humanidade sob medida quando chega a própria hora. Bolsonaro gostava de imaginar seus adversários atrás das grades. Hoje, o destino devolve o desejo com juros e correção. E, se o roteiro se cumprir como se desenha, ele contemplará anos a fio não a Papuda que desejou para o outro, mas a “Papudinha” que hoje o guarda — não como vingança, mas como consequência. Longos invernos e verões, repetidos, iguais, didáticos, para quem acreditou que força era gritar e coragem era humilhar.
E a cena final é a mais reveladora, porque não é jurídica: é moral. Quando os seus lotavam praças, bloqueavam estradas, dormiam em frente a quartéis e o chamavam de “mito”, ele adorava o coro. Alimentava o delírio. Deixava a massa acreditar que estava protegida por uma missão, por um líder, por uma promessa de “salvação nacional”. Mas bastou a gravidade do processo, bastou o peso de um ministro que ele insultava em público, e o mesmo Bolsonaro que se vendia como chefe de multidões vestiu a pele mais antiga dos oportunistas: a do homem que desconhece os próprios seguidores. Diante de Moraes, ele não foi o comandante. Foi o negacionista de si mesmo. Negou a própria sombra, negou o próprio rastro, negou a própria claque. E é aí que o “mito” morre de verdade: não pela condenação, mas pela covardia pública de abandonar até quem o tratava como messias. No fim, o homem que estimulou o país a odiar, punir e esmagar adversários descobriu que bravata não vira escudo, e que idolatria não vira habeas corpus. E assim, reduzido ao tamanho real, Bolsonaro deixa sua última lição: o porão que ele homenageou sempre foi o lugar onde ele mais se parece consigo mesmo — escuro, cruel e, quando a luz da responsabilidade acende, irremediavelmente vazio.

