Há quase 32 anos, eu havia chegado de um culto de Santa Ceia na igreja e me deparei com a notícia da morte de Ayrton Senna.
A notícia chocou o Brasil. No dia seguinte, no velório em São Paulo, formou-se uma fila imensa de pessoas que queriam dar o último adeus ao jovem piloto. Milhares passaram diante do caixão. No dia do sepultamento, uma grande multidão acompanhou o cortejo. O país inteiro parecia mergulhado em luto.
Aquilo chamou a atenção da mídia internacional. Muitos jornalistas estrangeiros tentavam entender como a morte de um piloto de corrida poderia provocar tamanha comoção nacional.
Por que um piloto de Fórmula 1 mobilizou o coração de um país inteiro?
Alguns comentaristas estrangeiros responderam dizendo que o Brasil é uma terra com poucos heróis. Segundo eles, quando alguém vence no cenário mundial, a população se apega a essa pessoa como um símbolo de orgulho coletivo.
Mas será verdade?
Quem são as grandes lideranças do nosso país que poderíamos apontar para os nossos filhos e dizer: seja como eles?
Quem são os grandes referenciais que representam caráter, coragem, inteligência, integridade e grandeza?
Quando olhamos para outras nações, percebemos algo interessante. Países como os Estados Unidos construíram uma cultura que preserva e exalta seus grandes nomes. Os americanos mantêm viva a memória de homens como George Washington, Abraham Lincoln e Martin Luther King. Os ingleses preservam figuras como Churchill, Newton, Shakespeare e tantos outros.
Essas nações entenderam algo fundamental: sociedades fortes cultivam exemplos fortes.
Heróis funcionam como mapas morais. Eles apontam para o tipo de vida que vale a pena ser vivida.
No Brasil, entretanto, existe uma relação curiosa com aqueles que se destacam. Muitas vezes celebramos alguém quando ele vence, mas logo depois começamos a desconstruí-lo. Existe entre nós uma mistura estranha de admiração e inveja em relação ao sucesso.
Nelson Rodrigues chamava isso de complexo de vira-lata. Uma tendência cultural de acreditar que tudo que vem de fora é melhor do que aquilo que é nosso.
O problema de uma sociedade que perde seus referenciais é que ela perde também os seus mapas.
Toda civilização precisa de exemplos que mostrem o caminho. Figuras que digam à próxima geração: é possível viver com coragem, disciplina, excelência e caráter.
A morte de Ayrton Senna revelou algo muito profundo sobre a alma da nação brasileira. Milhões de pessoas choraram não apenas por um piloto, mas por aquilo que ele representava.
Senna mostrava que um brasileiro poderia chegar ao topo do mundo e competir com os melhores.
No fundo, aquela multidão nas ruas estava dizendo algo simples: nós desejamos grandeza.
E quem sabe ainda dá tempo de resgatar nossa história e cultivar nossos heróis.
Quem sabe você pode ser um deles. Começando pela sua família.

