O Ocidente nasceu da força das perguntas. Na Grécia clássica, especialmente em Atenas, a filosofia inaugurou um método de pensar que não buscava a imposição de respostas definitivas, mas a construção de ideias a partir do diálogo e da dúvida. Sócrates, mestre de Platão, deixou como legado o método socrático ou maiêutica, que consistia em interrogar o interlocutor, desconstruir suas certezas e levá-lo, pouco a pouco, a perceber suas próprias contradições. Para Sócrates, a sabedoria não estava em acumular dogmas, mas em reconhecer a própria ignorância e, a partir dela, buscar a verdade.
Esse espírito interrogativo moldou a base de toda a tradição filosófica ocidental. Platão o transformou em teoria das ideias; Aristóteles o desenvolveu em lógica e ciência; os estoicos e epicuristas o aplicaram à vida prática. Ao longo de séculos, o pensamento grego alimentou Roma e, posteriormente, o cristianismo primitivo, que absorveu muito dessa tradição reflexiva. Foi assim que nasceu o humanismo ocidental: da coragem de perguntar.
Entretanto, com o declínio do Império Romano e a ascensão do poder absoluto da Igreja na Idade Média, grande parte desse legado se perdeu ou foi aprisionado. O período conhecido como “Idade das Trevas” não se refere apenas às dificuldades políticas e econômicas, mas sobretudo ao sufocamento da liberdade intelectual. O dogma passou a ocupar o espaço da dúvida, e a máxima “Roma locuta, causa finita est” — “Roma falou, a causa está encerrada” — simbolizou esse fechamento.
Nessa época, a autoridade da Igreja definia os limites do pensar. Perguntar demais podia significar heresia; divergir dos cânones estabelecidos era crime contra a fé. Movimentos como os dos cátaros e de pensadores como Jan Hus foram perseguidos e queimado vivo. Mesmo gênios como Galileu Galilei, já na transição para a modernidade, sentiram o peso da censura, obrigados a abjurar descobertas que contrariavam o dogma. Dentre as ideias abjuradas estava a de que a terra girava em torno do sol. Sentença, prisão pelo resto da vida.
O historiador Jacques Le Goff lembra que a Igreja medieval construiu um monopólio cultural, onde o saber estava submetido à ortodoxia. Já Johan Huizinga, em O Outono da Idade Média, mostra como a rigidez dogmática paralisava o espírito criativo, impondo um horizonte limitado à imaginação e ao pensamento. Era um tempo em que a autoridade pesava mais do que o argumento.
Foi apenas com o Renascimento e, depois, com a Revolução Científica e o Iluminismo, que o mundo voltou a respirar o espírito socrático. O questionamento retornou ao centro da vida intelectual. O método experimental de Francis Bacon, o racionalismo de René Descartes, a crítica de Immanuel Kant e, posteriormente, a defesa da ciência aberta de Karl Popper reafirmaram que o conhecimento só avança quando se aceita a possibilidade do erro, quando se pergunta de novo, quando se põe em dúvida até mesmo as verdades mais estabelecidas.
As universidades modernas surgiram desse impulso. Nasceram para ser espaços de debate, pesquisa e liberdade intelectual. Diferente do dogmatismo medieval, elas se propuseram a acolher o dissenso e a cultivar a crítica como fundamento. O ambiente acadêmico deveria ser o oposto da Roma medieval, não um tribunal de verdades, mas um laboratório de ideias.
No entanto, o que observamos em grande parte do cenário atual é um preocupante retrocesso. Outrora concebidas como centros de excelência e investigação, transformaram-se em templos de repetição, verdadeiros conventos seculares em que o dogma substitui o pensamento. Já não se entra para aprender a pensar, mas para decorar palavras de ordem e reproduzir narrativas ideológicas já envelhecidas.
Se na Idade Média o “Roma locuta, causa finita est” calava qualquer voz discordante em nome da autoridade eclesiástica, hoje o mesmo se repete em sala de aula. Basta que o professor, travestido de sumo sacerdote do marxismo de segunda mão, pronuncie os mantras — “patriarcado”, “colonialismo”, “luta de classes” — para que a discussão se encerre automaticamente. Nenhum aluno ousa levantar a mão, e quem o faz, arrisca-se à execração pública.
O filósofo Michel Foucault alertava que todo regime de saber tende a produzir também um regime de exclusão. Ou seja, toda verdade oficial cria, ao mesmo tempo, um campo de interditos. E é isso que observamos, quem ousa se afastar da narrativa dominante corre o risco de ser rotulado, desqualificado ou simplesmente silenciado.
Ortega y Gasset, na Obra, a Rebelião das Massas, já denunciava que o maior perigo de uma sociedade é quando as instituições que deveriam formar espíritos livres se tornam meros reprodutores de um pensamento único. Hoje, basta a repetição da cartilha ideológica para encerrar qualquer discussão.
Já Olavo de Carvalho sustentava que: “nossas universidades não formam intelectuais, mas militantes obedientes. Ao invés de gerar autodidatas capazes de pensar por conta própria, treinam papagaios certificados, que recebem diploma como quem recebe a bênção papal.”
O resultado é um paradoxo grotesco: nunca se falou tanto em “liberdade de pensamento” e “pluralidade”, e nunca se pensou tão pouco. As universidades brasileiras não produzem debate, produzem silêncio. Não abrem espaço para questionamentos, apenas reforçam consensos artificiais. São, em suma, o novo Vaticano da ignorância.
Se na Idade Média o mundo mergulhou em trevas porque a dúvida foi sufocada, não podemos repetir esse erro no presente. A alternativa é clara, resgatar o espírito socrático. Isso significa devolver às universidades sua vocação original — ser o lugar onde as perguntas valem mais do que as respostas, onde a divergência é celebrada e não punida, onde o conhecimento é visto como caminho, não como ponto final.