Acredito que grande parte de nós brasileiros somos conservadores. Pelo menos em relação ao que estimamos: família, amigos, trabalho, amores, livros, memorias etc. Um homem de disposição conservadora tenderá a valorizar primeiro os confortos presentes às ilusões futuras. Não porque eles sejam superiores a uma alternativa hipotética, mas, precisamente, porque eles não são uma alternativa hipotética.
Para os chamados progressistas, que sustentam um ponto de vista extremamente otimista acerca do progresso ilimitado da humanidade e uma supersticiosa arrogância de saber mais do que realmente sabem, é o conservador uma alma que não merece perdão. Com essa visão, acabam por cair na tentação de modificar a realidade a partir de teorias pré-concebidas e do planejamento Estatal.
A “moderna” opinião política brasileira sempre faz uma identificação entre conservador e fascista totalmente equivocada, já que são termos incompatíveis entre si. Para um conservador, o fascismo e o comunismo se apresentam como tiranias gêmeas, posto que compartilham a mesma concepção violenta e primária de exercício exclusivo da política pelos “iluminados” e pelo partido único.
O conservadorismo vai no sentido contrário dos “iluminados”, caracteriza-se pela sua atitude intrinsecamente distópica, já que admite a imperfeição intelectual humana perante a complexidade e as contingências da vida com que nos deparamos no dia a dia; pelo reconhecimento das diferentes concepções do bem que definem as sociedades abertas, democráticas e pluralistas; pelo respeito às tradições úteis e benignas que sobrevivem aos diferentes testes do tempo; pela apologia de uma atitude reformista que seja capaz de evitar a degradação do edifício que se procura conservar; e pela valorização e proteção de uma sociedade comercial capitalista, entendida como condição primeira para a realização da natureza dos homens e para o bem-estar das sociedades. (Coutinho, João Pereira)
A defesa da imperfeição intelectual humana começa por desautorizar a procura de ideais utópicos, sejam eles revolucionários ou reacionários, porque essas ilusões se assentam na arrogância própria de quem se considera onipotente e onisciente, ignorando a sua própria cegueira e as imprevisibilidades que sempre se abatem sobre a conduta e a vida dos homens.
Não é por acaso que o primeiro conservador moderno (Edmund Burke) reagiu precisamente contra essa intolerável arrogância. O fato histórico utilizado para revelar o erro e o potencial homicida dos progressistas foi a Revolução Francesa. Mais do que uma reforma, a Revolução da Guilhotina foi apresentada como uma promessa total de que era possível realizar na Terra o que espíritos mais modestos esperavam encontrar apenas no Céu. Essa busca pela perfeição, pela sua inafastável impossibilidade, apenas conduziu para atos crescentes de violência e miséria, sem esquecer das milhares de cabeças cortadas pelo bem da Revolução!
Nesse sentido o conservador é um claro simpatizante de um governo modesto e prudente, que reconhecerá a multiplicidade de valores e objetivos de vida que os seres humanos perseguem por sua conta e risco no contexto de uma sociedade pluralista. Essa afirmação tem várias implicações e várias aplicações, com disse Isaiag Berlin. O reconhecimento de um universo de escolhas pluralistas significa que não cabe ao poder político decidir a hierarquia de valores sob a qual todos os indivíduos terão de viver as suas vidas. Os indivíduos que vivem suas vidas; falhando ou acertando, devem perseguir os objetivos que entendem mais oportunos, sem a mão paternalista do Estado.
Em homenagem a um conservador heterodoxo (Hayek), não é função de um governo transformar uma ordem espontânea, como o mercado, numa organização sujeita aos comandos abusivos de uma elite dogmática. Não apenas por motivos de eficiência econômica, mas porque não compete ao Poder Público a autoridade de decidir centralmente acerca das escolhas livres dos seres humanos, que procuram apenas melhorar a sua condição de vida ao participar do mercado com o império da Lei.
Por fim, a vida não é uma festa, nem uma desgraça, mas sim um assunto importante do qual estamos encarregados e que devemos resolver com honra (Alexis de Toqueville). Assim, seja qual for seu ideal, conservador ou progressista, esteja certo que suas escolhas têm consequências reais e muita das vezes fatais, daí porque calha a perspicácia de Roberto Campos: o diabo das revoluções é que têm um “r” a mais…
Julhiano Cesar Avelar
Procurador do Estado do Amapá. Atualmente Diretor Presidente do Instituto de Terras do Estado do Amapá- AMAPA TERRAS