Percorri com saciedade página por página, linha por linha e porque não dizer conto por conto. Mas o que há de tão interessante neste livro? As histórias trazem recortes do cotidiano, da vida vivida por vidas que fazem palco, cenário e plateia das vidas de todas as gentes. Em linguagem fluente, sem tropeços ou delongas, esse Menino/Senhor da Ilha nos oferece de forma simples recortes históricos, recordações do imaginário, causos ouvidos ou contados como é de hábito naquelas terras.
Mas o que mais me impressionou foi a capacidade de relatar, criar e recriar em linguagem de contador de histórias o aspecto subjetivo do ser humano, seus sonhos, aspirações e frustrações. E, contrariando seu editor, que elegeu o conto Serpente Negra como capa e porta voz da coletânea, considero o conto Meninos das Ruas, sem desmerecer aquele, o momento culminante do autor na abordagem da sensibilidade humana, na compreensão dos dramas sociais de nossa época e uma joia no âmbito da criação de texto – um diálogo que se perpetua, não pode findar.
Como diz Hélio Cabral Filho, na apresentação poética da obra:
“Três pequenos delinquentes, Crianças sobreviventes, O justo, o injusto, o ilegal…
O roubo, a droga, o assalto… Cada fato um sobressalto, de um mundo tão desigual.”
Quando recebo um texto, quando recebo um livro, fico encantada. Explico. Creio, e o meu crer resulta de longos períodos de observação e reflexão, que nos textos literários está a essência da Sociologia, da Psicologia, da História, da Arqueologia, da Geometria, da Filosofia, da Cosmogonia e de todas as Ciências e saberes que possamos imaginar. Sim, isso porque, ali está o sumo, o pano torcido, o caroço ralado da essência do divino e do humano – a linguagem, o Verbo, desenhando, narrando, emparedando e libertando sentimentos, atos e cenários.