Eu começo o dia, o qual é sempre um abrir de cortinas com a promessa de esperança sobre o que ele nos trará. Nunca sabemos, de certo, o que virá. Contudo, este não saber é o que faz não perder a graça e a possibilidade do encantamento. Caso contrário, seria uma perda e tanto.
O sol brilhante, assim como a boa chuva, nos acorda dizendo: curta o dia, o calor, o frio, a estação e o instante, pois cada dia é um descortinar da semana.
Assim, pinço uma estrela colada no céu e a colo na parede do meu sorriso para reinventar meu mundo, minha rua e meu quarto, onde a cama me aconchega e me aquece do frio que nunca senti.
Vagarosamente sonho, voo, lembro e relembro os dias que não vivi. Rasgo minhas ilusões, uma por uma e deixo do lado de fora do quarto tudo que inutilmente guardei ou tudo aquilo que completamente perderam o sentido. Folhas mortas no resto do outono.
Represo as lágrimas em meus olhos fechando sua comporta e assim, cuspo o último resquício de fel sobre sua própria face.
Uma música suave passeando pelo calor da lareira a aquecer o frio noturno como o sol invernal que aquece as orquídeas e as açucenas dos poetas, e sobre a almofada, um livro com um convite entre aberto salpicado de dúvidas. O aroma do delicioso café refletido na velha taça de vinho, traz o súbito desejo de tudo.
Ao chegar da tarde, janelas abertas mostram o sol, se infiltrando em cada interior da casa, mostrando sua imponência em um céu todo banhado em azul à espera das chuvas que são iguais a paixões: intensas, mas que logo passam.
A tarde vai passando, assim como a vida, de mansinho e passa escondendo a sua nudez e a sua farsa sob o excessivo calor do tempo, atraindo olhares disfarçados debaixo de caprichadas máscaras. Ando mais um pouco, colho frutos recém-chegados à fase madura. Aqui estão eles em minhas mãos, na minha frente, brilhantes como lustres, cheirosos como pétalas de jasmim e descubro que alguém os colheram para mim. Observo o passar do tempo, vejo que o destino é um caminho sinuoso e incerto sob a sombra das árvores ou sob a sombra do chapéu nos meus versos. E no dinamismo do tempo, puxo a rédea para a vida não me escapar.
Então, o vento anuncia a chuva que fertiliza a terra, abro meus braços e adentro, de corpo e alma, na chuva. Neste momento, sinto que o mundo é apenas meu e segue o seu curso num ritmo inalterado.
E quase caindo a tarde, o pôr do sol anuncia a hora do café espero pelo padeiro trazer o meu, o seu, o pão nosso de cada tarde. Os pássaros se despedem anunciando a noite, uma bela obra criada por Deus para os reflexivos ou para os amantes apaixonados.
É nesse período do dia (noite) que tudo se cala, nasce e exala o êxtase da vida num frêmito viver como sêmen expelido no cosmos.
Descalço, caminho e sinto o mundo aos meus pés num campo que já não tem fim, a lua me faz companhia debaixo de um céu salpicado de estrelas. Cortinas, como bailarinas, vestem as janelas no ritmo do vento deixado do lado de fora em companhia da aurora para não apagar as velas acesas.
A noite é exatamente a hora da mansidão e calmaria, um prêmio conquistado e exibido para a própria alma que entardeceu vendo o sol se entrever em pequenos intervalos. Lá fora um mundo que anda, sua e logo pausa para o descanso em cidades que incham além dos limites.
Na lareira, o fogo se espalha por cima de algumas achas de lenha, as luzes das ruas, acesas, realçam os galhos do ipê ao longo da solitária rua que de tão solitária, me possibilita ouvir os sons do mundo, ouvidos nessas horas silenciosas de lua e céu.
Penso!!! Isso é vida. Este poema construído a cada dia, cheio de intensidade. Paro e imito minha amiga Rejane Rech e recito, em voz alta, uma passagem da portuguesa Inês Pedrosa: É de olhos abertos que te encontro, nos buracos de silêncio de minha casa, nos interstícios das multidões de fim de tarde, no bafo sobre os vidros, quando o frio esmaga a noite.
O que fui, o que sou, se mistura à vida. Vivo os dias, as horas, o instante intenso.
Vivo, e isso é bom.
COTIDIANO PARTE II
