Também parece que nos habituamos a sonhar o sonho alheio. Até aí, nada demais. O problema ocorre quando o sonho dos outros se impõe ao nosso, desviando-nos, para que o país não se beneficie do apoio externo e seja apenas o benefício para outros.
Guardadas as proporções, já que são casos distintos, vivemos isso com Percival Facquar, Henry Ford, Nelson Rockfeller, com o caso da Hanna Minning Company e, talvez agora e no futuro, com o investimento em internet para conectar 19 mil escolas e monitorar a Amazônia – envolvidos em projeto trazido por Elon Musk.
“Não existe almoço de graça”, diz ditado popular. No caso, o preço já estaria revelado e de modo transparente: o monitoramento da Amazônia, por empresa privada estrangeira.
Nunca antes o controle das informações significou tanto poder nas mãos de particulares. No passado, esse monopólio estava com governos e países. Não sem motivo, CIA, KGB e outras agências de inteligência cuidavam do tema. Hoje, essa força está com empresas privadas, que passaram a deter o controle do “fluxo de informações do mundo”.
Exemplo disso consta em processo nos EUA. Apura-se que nem o “modo de navegação anônima do Google” é de fato anônimo, já que sistema continuaria coletando dados. Tudo é revelado, nada é privado. Estamos expostos!
A propósito, este texto não é contrário a investimentos estrangeiros ou conceitos afins. Apenas é nacionalista, algo que o Neoliberalismo e a Globalização quiseram mostrar como ultrapassado. Ora, se os EUA e a China podem ser nacionalistas, também podemos.
Consta que certo músico foi perguntado sobre quem seria o maior guitarrista do mundo. Sua resposta foi Jimi Hendrix. O entrevistador, então, perguntou-lhe qual era o maior guitarrista “vivo” do mundo e ele disse: Jimi Hendrix. A metáfora talvez nos ajude a perceber nem tudo está ultrapassado, como Hendrix, o nacionalismo e a Soberania.
Com essa premissa, cabe rememorar que o americano Percival Facquar fez vultosos investimentos em negócios seus, no Brasil. Havia de tudo um pouco: borracha, estradas de ferro (incluindo a Madeira-Marmoré), hotelaria e exploração de minérios. Aliás, obteve concessão para exploração (leia-se exportação) de ferro do imenso Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais. Há cerca de cem anos, era negócio “pequeno”, envolvendo 4 milhões de toneladas de ferro, anuais, com exportação por seus próprios navios etc. Anos depois, em 1942, a sua empresa foi absorvida pelo governo, através da (então) recém criada Companhia Vale do Rio Doce.
Henry Ford queria investir em borracha e ganhou do governo brasileiro 1 milhão de hectares. Fez a Fordlândia e Belterra e, com o fracasso dos negócios, fechou as portas e foi embora, após receber indenização do governo brasileiro.
Nelson Rockfeller foi de extrema influência no Brasil e na América Latina. Por suas ações, muitas coisas boas nos chegaram, como as pesquisas com sementes, a extensão rural e as modificações no zoneamento de São Paulo. Contudo, era a face da Standard Oil mais conhecida no Brasil e, por isso, veio indagar Getúlio Vargas sobre a criação da Petrobrás.
Também teve toda sorte de negócios aqui (a imensa rede é bem descrita no livro Thy Will Be Done, dos americanos Gerard Colby e Charlotte Dennett) e se envolveu com a imensa Fazenda Bodoquena, empreendimento que mereceu de Élio Gáspari o título de “cápsula da história do Brasil nos últimos 70 anos”.
A Hanna Minning Company, empresa americana que explorava o ferro brasileiro, teve fundamental relação com dois fatos importantes da História nacional: o suicídio de Getúlio Vargas e a deposição de João Goulart. Antes do suicídio, Vargas cassou a sua concessão para exploração do mineral. Café Filho, ao lhe suceder na Presidência da República, logo a restabeleceu. Anos depois, João Goulart cassou a sua concessão e, após ser afastado do governo, foi sucedido por Castelo Branco, que a restabeleceu, logo nos primeiros dias.
A coisa toda era tão grande que a “politóloga norte-americana Jan K. Black afirmou que, com Castelo Branco, “o Brasil declarou sua dependência”. Magalhães Pinto, forte apoiador civil da derrubada de João Goulart, passou a reclamar que “grupo estrangeiro se apropriou das riquezas minerais brasileiras e de Minas Gerais, sem nada pagar”. Carlos Lacerda, também outro apoiador da derrubada de Jango, disse que não fizeram a revolução para se “entregar a indústria nacional a grupos estrangeiros”.
Importante relembrar que buscamos ter isenção e não defender ideologias, cuidando para apenas narrar fatos, que falam por si: c`est la réalité des faits.
Agora, recebemos a destacada visita do Elon Musk, tido como o homem mais rico do mundo. A imprensa noticia que ele objetiva oferecer internet via satélite para cerca de 19 mil escolas, em áreas rurais, em conexão com a Starlink, empresa que integra a companhia espacial Space X. Até aí, tudo bem. A questão é que também foi declarada a intenção de se monitorar a Amazônia. Paixões foram despertadas e surgiram manifestações em vários sentidos, nos jornais e nas redes sociais.
Já tivemos monitoramento do nosso território, pelo programa de aerofotografias feitas por aviões americanos, em meados do Século XX. Não consta que isso tenha nos trazido qualquer benefício. Agora, por satélites em mãos privadas, teríamos outra modalidade de vigilância, certamente mais intensa e profunda, da Amazônia: verdadeira rede, com cerca de 19 mil escolas, equivalendo a 19 mil pontos de conexão com a internet. Isso se dá em meio a grande guerra tecnológica em curso, com atividades privadas poderosíssimas dominando ações que antes eram dos governos dos EUA e da antiga União Soviética: a corrida espacial.
Fala-se que não precisamos de monitoramento como se propõe, porque tais satélites não se prestariam a tal fim, já que seriam equipamentos de comunicação. Também se diz que o Brasil não tem carência de dados de monitoramento do desmate da Amazônia, por possuir sistema que detecta o desmatamento em tempo real. Sofremos é com a falta de estrutura para o degrau seguinte, que envolve o uso do eficaz dos dados monitorados, nas atividades de fiscalização, aplicação de sanções e controle do desmatamento ilegal. Para que isso aumente, precisaríamos investir nas estruturas estatais detentoras do exercício do poder de polícia do Estado, em todos os níveis federativos, notadamente na Amazônia Legal, que corresponde a cerca de 60% do nosso território.
Contudo, investir em fiscalização exige o fortalecimento do papel do Estado e do serviço público, já que as atividades típicas do citado poder de polícia são, em essência, indelegáveis. Assim, a ideia do monitoramento privado se chocaria com o uso desses dados pelo Estado, mormente em atuação forte o bastante para aplicar sanções efetivas aos que desmatam ilegalmente. Mas, se isso for feito, não haveria o risco de se revelar ligações orgânicas ou financeiras, entre o ato de desmatamento ilegal e empresas de outros continentes, como se noticia? Será que isso agradaria a todos ou o interesse é só mesmo o pretendido monitoramento?
Comenta-se que água doce enche porões de navios e segue da Amazônia para longe… Se fala muito, sobre tudo. E, como os números são tão grandiosos, é crível que, por mais que se fale, talvez apenas tenha sido revelada a ponta do Iceberg…
Não sei o que pensam os que leem esse texto, mas não gosto quando alguém entra na minha casa e começa a vigiar os meus passos ou arrumar as coisas ao seu modo. Também não gosto quando as regras mudam em favor dos vencedores, durante o jogo.
No fim de tudo, a grande questão é saber se prosseguiremos cedendo, sendo “tão” bonzinhos ou vistos como possuidores de “graus de ignorância” (como foi dito por depoente, em audiência perante a Subcomissão de Bancos e Moeda do Senado dos EUA, segundo registra a tradução anexada à CPI da Venda de Terras a Estrangeiros, ocorrida no Congresso Nacional, em 1967 – páginas 221/241) ou se compreenderemos o tamanho do jogo e, para o futuro, manteremos a unidade nacional e o povo ainda podendo dizer do orgulho de ser brasileiro, ante o tremular da bandeira brasileira, na imensa Amazônia Legal.