O mesmo acontece com a culpa ou a tristeza. Em algum ponto da mente, prevendo que é trabalhoso racionalizar e enfrentar a situação sem elevar a voz com o outro ou punir a si próprio, o indivíduo lança mão dessas ferramentas contra si ou contra o mundo.
Mal sabe ele que são ferramentas de dominação!
E dói por conta de que se trata de acordo inconsciente, esquecido num canto profundo da mente, que o faz sentir-se familiarizado com aquele modus operandi. E ninguém pode negar ao irresistível apelo das emoções, ainda que lhe controlem a condição de sobrevivência.
Nesse ponto, a vida não se torna apenas difícil, mas insuportável. De qualquer ângulo, em qualquer parte do planeta, obter respostas às reais causas da raiva, da culpa ou da tristeza é, sem dúvida, assumir autoquestionamentos odiosos.
Não há nada mais doloroso do que se despir de todas as justificativas cativas que mantêm a criatura vítima dos pais, da família, do governo…
Olhar-se nos olhos e aceitar que as fases da vida são resultados de escolhas unicamente pessoais, imputa a maior de todas as dores: a da solitude. Salvo algumas exceções, o ser humano vem e vai só, nem o parto, nem a morte estão condicionadas aos desejos de outros.
E nesse ponto a cobra fuma: apontar culpados ou culpar-se conforta – e nisso quem vos fala se inclui. O melhor dos testes de autonomia e habilidade emocionais é esse: nesse exato momento, quem é capaz de se sentir feliz de verdade?
É normal a resposta vir negativa. Vai outra pergunta: quem é capaz de estufar o peito e dizer, em alto e bom som, que realmente gosta de si? No mínimo, surgiriam uns aqui e ali dizendo que gostaria de mudar uma coisinha só.
Outros mais audaciosos diriam que, se fossem Y, a vida seria muito mais fácil. Deve ser por isso que o mestre Jesus falava em renascer. O importante não é aquilo que foi feito ou ocorreu no passado, mas o que se faz com esse acúmulo de histórias e aprendizados, no presente.
Todo o esforço para manter o status quo vem da decisão inconsciente de ser incapaz de mudar a si, de correr o risco de se conhecer e de enfrentar possíveis desaprovações do mundo.
E assumir tal premissa não tem nada a ver com valores morais, diz muito mais sobre o processo evolutivo assumido. O malfeitor faz o que faz com justificativas de estar realizando um “bem”. Obviamente, não no sentido de um bem juridicamente protegido, mas no sentido de ser “benéfico” para si.
Daí, o mundo está cheio de injustiças e crueldades, todavia, nenhuma pessoa que a cometeu foi desejando o mal, o “não benefício” a si ou a outro.
Em algum momento da vida, há opções que se tornam certezas e que se tornam valores e que se tornam hábitos e que se comportamentos.
A decisão de ser infeliz é uma dessas opções!
Não por motivo das circunstâncias do nascimento ou de uma desventura infeliz. Essa escolha decorre da decisão de que ser infeliz é uma coisa boa, merecida e segura. É natural.
A resposta para saber o quão absurdamente impotente se está diante desses sentimentos é analisando o próprio estilo de vida, que são as tendências de pensamentos e ações.
Então, matematicamente, basta encaixar-se na fórmula: estilo de vida= personalidade + temperamento. Pronto! O estilo de vida comunica como a pessoa enxerga o mundo e a si.
A inflexão dessa conta está nas habilidades/repertórios que se busca aprimorar com o tempo. O pessimista, o vitimista e o complexado, raramente, apreciam mudanças. Sofrem sem antes se perceberem capazes de encarar os desafios.
Por tudo, preferem manter os mesmos “defeitos” e desacreditar de tudo, porque ninguém mais vai ferir, nem aumentar suas dores pessoais. Então, partindo dos aprendizados da INFÂNCIA, combinados com os fatores externos (nacionalidade, cultura, ambiente familiar), TODO O PODER é dado ao que crê (em si, incondicional e totalmente).
Todas as pessoas estão, em todo segundo da vida, escolhendo o estilo de vida que o torna triste, culpado ou irado. É como dirigir um carro velho que já conhece.
Por ser mais prático e familiar, na inércia, usa-se a experiência para reagir aos eventos dos quais prevê o resultado. Dói, mas dá pra conviver com isso.
São irresistíveis e viciantes a raiva, a culpa e a tristeza. Escolher um novo estilo de vida e se lançar no desconhecido é o mesmo que morrer e renascer adulto nu com a mão no bolso.
Como justificar a coragem de desagradar os outros, quando isso implicar a vulnerabilidade do desconhecido?
É muito mais fácil continuar tendo acessos de raiva, de vitimismo ou de tristeza por qualquer “razão justificada” e optar pelo velho conhecido desapontamento.