O nome era Edith. Soube assim que cheguei ao educandário. Ao conhecê-la, o impacto da atração sentida, criou êxtase, simpatia, e só anos mais tarde reconheci, também tesão! Jamais antes, estudara ou convivera, em “proximidades” femininas, como iria acontecer durante o ano que se iniciava. Novos comportamentos. Por isso, ao nos ver, ficávamos encabulados. Eu evitava insistir no olhar, para não deixar trair a paixão que nutria. Sentia raiva de mim mesmo, por não saber bem o que se passava em meu íntimo, e pior, não poder controlar o que me seduzia.
Chegado o período de festas juninas, havia uma tal de quadrilha da roça que todos dançavam. A emoção e o coração explodiam, quando acontecia o “changê de dame”, o que me permitia tocá-la. E nesses trejeitos e chamegos, lá se foi todo o ano, até chegar novembro. Nunca acontecera nada, que denunciasse em nós, sentimento maior. Apenas breves e pouco efusivos cumprimentos.
Acontecimento insólito traria mudanças. A direção da escola imporia medidas que acabariam interferindo violentamente, no platônico romance que poderia ser, mas não era. Rebelde e já pouco paciente com homens, ao reclamar em sala de aula de um chato colega, o professor, não me levando a sério, respondeu-me que desse uma tapinha nele. Levantei-me e dei uma senhora porrada, para ninguém botar defeito. E nunca compreendi as razões do mestre, que me expulsava da sala, gritando histérico que só falara de brincadeirinha.
Excluído!!! A coordenação disciplinar considerou ato grave. Sairia do colégio, só podendo voltar no fim do mês, para tão somente fazer as provas finais. Legal, naqueles tempos, em período de últimos testes anuais, era vedada a expulsão. Que nem hoje, se matar alguém em dia de eleição, não se pode ser preso.
Já acontecia o dia de finados e vim para casa. Por pouco tempo, mas bastante para tomar uma esculhambação danada de mãe e ter que agüentar o mau humor de pai para comigo, pelos motivos que me traziam.
Voltando à escola, só comparecia às provas. O que não afetava muito. Bom aprendiz, ex aluno da Fundação Getulio Vargas, deixava os novos mestres, até com raiva, pela indolência na aprovação que sempre conseguia, mas o castigo não demorou muito. Não vendo Edith, perguntei a um colega por onde ela andava. A resposta roubou-me razoável prazer da juventude, dificultando por tempos, que tornasse a gostar de outra. Contou-me o amigo, que os pais dela haviam mudado para Santa Catarina e ela se fora com eles. Disse mais, Edith ficara a lamentar por dias, sentindo minha falta e angustia por partir antes de meu retorno.
Ano se fora desperdiçado, em mútuo silêncio e acanhamento. O desfecho do precoce amor tinha sabores únicos de frustração, trazendo junto o arrependimento de ter perdido sem coragem de comparecer, lutar ou apenas declarar. Ruim, era entender não haver conserto. A lição foi severa! O pouco amadurecimento, não ajudava nada a superar o sofrimento e o sentimento de abandono.
Durante anos repensei o ocorrido e em como é estranha a arte do relacionamento de uma pessoa a outra. Vezes passamos tempos, atraídos por companheiras ou alguém, sem nunca simplesmente dizer: gosto de você pode ser ou ta difícil? Mesmo sabendo que a situação não fica pior, nunca.
Bem sacana, minha memória culpava sempre a criação como menino do interior e mãe, que atribuía tudo a uma natural “jequisse”. Talvez fosse!
Nos costumes vividos então, tínhamos que atravessar o salão para tirarmos moça para dançar. Eu não ia mesmo. E se ela dissesse não? E se dissesse estar cansada? Vexame, vexame!!! Incoerentemente, nunca soube que elas morriam de medo de tomar “chá de cadeira”!!! Puxar conversa, só mesmo após as devidas apresentações, etc, etc. Segurar na mão, mesmo com concordância de encontro, só após o terceiro deles, e começando pelo dedinho mínimo. Transar, nem em sonho!
Mais amargo, é que pertenci a uma geração para lá de complicada, em que uma das máximas, era não se deixar saber, que agente gostava. O importante era somente ser homem macho e mulher direita, não se sendo fácil jamais.
Hoje entristece pensar, quantas Ediths passaram por mim e por outros, sem que percebesse ou dessem conta. Quantas amizades não aconteceram talvez, por não se externar ou retribuir um simples gesto de simpatia.
Bem por isso, agora, falo todas. Meio tímido ainda, mas falo. E se existiu alguma perda, tento compensar e consertar toda manhã. Ao acordar o que é meu de afeto, digo sempre: Eu te amo filha…Eu te amo filho…
José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.