Hunter (Haley Bennet), é o retrato falado de uma esposa perfeita. Nas palavras do próprio marido, em uma das cenas iniciais, é doce, bela e abnegada. Sempre está bem arrumada esperando-o chegar do trabalho, com comida prontinha na mesa, vestidos bonitos e conversas agradáveis em tom de voz manso.
Pelo marido, ela condescendentemente aceita viver em uma casa isolada e ter um filho. Mas o que ninguém sabe é que, enquanto vive essa aparente vida de comercial de margarina, ela carrega uma série de segredos alarmantes consigo; um deles, é que uma necessidade crescente, compulsiva e desesperada de ingerir objetos não comestíveis está, cada dia mais, dominando-a por inteiro.
Há pouco mais de um mês, a alotriofagia – transtorno alimentar caracterizado pelo impulso de comer objetos que não apresentam nenhum tipo de valor nutricional – vem sendo mais discutida depois de ser apresentada na personagem de Klara Castanho em “Bom Dia, Verônica” (série da Netflix) que manifesta essa síndrome comendo botões. É evidente que o tema, por si só, já desperta muita curiosidade, mas há de se reconhecer a inteligência na maneira que o diretor Carlo Mirabella-Davis o trabalha em “Devorar”.
O filme não só reafirma a gravidade do transtorno, salientando até mesmo seus aspectos mais polêmicos, como também o utiliza como uma metáfora para o silêncio transigente da protagonista. Hunter é uma mulher obcecada por agradar todos a sua volta, e isso nem de longe faz dela uma personagem rasa, do contrário, traz à tona diversas camadas que compõem sua personalidade e sua vida. Ela sabe que discordância não combina com aprovação externa, por isso, toda vez que algo a desagrada, ao invés de demonstrar sua insatisfação, escolhe se calar.
O fato de a protagonista engolir objetos cada vez mais perfurantes e grotescos; até mesmo o próprio título original em inglês (Swallow, que significa literalmente engolir), compõem uma metáfora muito nítida. A cada vez que ela passava por uma decepção e escolhia não manifestar descontentamento, era como engolir algo intragável. A progressividade com a qual ela, ao longo da narrativa, opta por ingerir objetos maiores e perigosos gradualmente, é proporcional aos incômodos e sofrimentos que ela enfrenta em silêncio.
Como se já não fosse bom o suficiente por todo seu aspecto crítico, Carlo Mirabella-Davis ainda consegue criar um ar de suspense muito palpável. A agonia de ver a personagem principal se calar diante de absurdos e engolir tantos objetos inacreditáveis é sufocante e, ao mesmo tempo que induz ao ímpeto de pausar o filme, provoca uma curiosidade incontrolável de continuar assistindo. As impressões criadas ao ver o filme são muito sensoriais, sempre evocando medo, nojo e angústia através dos anseios da própria protagonista.
Aqui é preciso reconhecer também, a atuação fantástica de Haley Bennet, que mergulha na personagem e entrega uma mulher altamente submissa, insatisfeita e, dentro do possível, obcecada por controle. A narrativa não teria tanto sentido próprio se não fosse pela incorporação magistral da atriz, que capta e transmite a essência da personagem com muita clareza e sensibilidade. Sem tamanha entrega, o impacto da história não seria o mesmo.
Obviamente, juntando todos esses aspectos, o resultado não é exatamente um filme para entretenimento. Mas com certeza, a nível de pensamento, torna-se inesquecível uma vez que for assistido. “Devorar” está disponível somente no YouTube e, com certeza, é uma experiência cinematográfica sem igual.
Pelo marido, ela condescendentemente aceita viver em uma casa isolada e ter um filho. Mas o que ninguém sabe é que, enquanto vive essa aparente vida de comercial de margarina, ela carrega uma série de segredos alarmantes consigo; um deles, é que uma necessidade crescente, compulsiva e desesperada de ingerir objetos não comestíveis está, cada dia mais, dominando-a por inteiro.
Há pouco mais de um mês, a alotriofagia – transtorno alimentar caracterizado pelo impulso de comer objetos que não apresentam nenhum tipo de valor nutricional – vem sendo mais discutida depois de ser apresentada na personagem de Klara Castanho em “Bom Dia, Verônica” (série da Netflix) que manifesta essa síndrome comendo botões. É evidente que o tema, por si só, já desperta muita curiosidade, mas há de se reconhecer a inteligência na maneira que o diretor Carlo Mirabella-Davis o trabalha em “Devorar”.
O filme não só reafirma a gravidade do transtorno, salientando até mesmo seus aspectos mais polêmicos, como também o utiliza como uma metáfora para o silêncio transigente da protagonista. Hunter é uma mulher obcecada por agradar todos a sua volta, e isso nem de longe faz dela uma personagem rasa, do contrário, traz à tona diversas camadas que compõem sua personalidade e sua vida. Ela sabe que discordância não combina com aprovação externa, por isso, toda vez que algo a desagrada, ao invés de demonstrar sua insatisfação, escolhe se calar.
O fato de a protagonista engolir objetos cada vez mais perfurantes e grotescos; até mesmo o próprio título original em inglês (Swallow, que significa literalmente engolir), compõem uma metáfora muito nítida. A cada vez que ela passava por uma decepção e escolhia não manifestar descontentamento, era como engolir algo intragável. A progressividade com a qual ela, ao longo da narrativa, opta por ingerir objetos maiores e perigosos gradualmente, é proporcional aos incômodos e sofrimentos que ela enfrenta em silêncio.
Como se já não fosse bom o suficiente por todo seu aspecto crítico, Carlo Mirabella-Davis ainda consegue criar um ar de suspense muito palpável. A agonia de ver a personagem principal se calar diante de absurdos e engolir tantos objetos inacreditáveis é sufocante e, ao mesmo tempo que induz ao ímpeto de pausar o filme, provoca uma curiosidade incontrolável de continuar assistindo. As impressões criadas ao ver o filme são muito sensoriais, sempre evocando medo, nojo e angústia através dos anseios da própria protagonista.
Aqui é preciso reconhecer também, a atuação fantástica de Haley Bennet, que mergulha na personagem e entrega uma mulher altamente submissa, insatisfeita e, dentro do possível, obcecada por controle. A narrativa não teria tanto sentido próprio se não fosse pela incorporação magistral da atriz, que capta e transmite a essência da personagem com muita clareza e sensibilidade. Sem tamanha entrega, o impacto da história não seria o mesmo.
Obviamente, juntando todos esses aspectos, o resultado não é exatamente um filme para entretenimento. Mas com certeza, a nível de pensamento, torna-se inesquecível uma vez que for assistido. “Devorar” está disponível somente no YouTube e, com certeza, é uma experiência cinematográfica sem igual.