Quero ir mais além e explorar diferentes significados do termo “conversar” como um ponto de partida da criação literária, a qual implica em dialogar com outras obras ou criações de outros autores, servindo assim como base de inspiração para a sua própria criação, como fosse essa obra uma luz para os caminhos ainda não percorridos, e é muito importante entender que a leitura de outras obras pode ajudar nessa empreitada, pois se entende que uma obra nunca nasce sozinha, ela é sempre fruto de uma outra obra.
Eu gosto de pensar que todo artista tem um grande potencial criativo que muitas vezes não é explorado, e que vez ou outra precisa de uma luz para vir à tona. Para fazer um poema é muito importante estar inspirado e como ponto de partida, a leitura de outras obras podem ajudar nessa empreitada. Cada um tem sua maneira de se inspirar, e ouvir uma música, caminhar ao ar livre, Olhar a natureza, ler bons livros é também dialogar com algo que não fora criado por você, mas que te trará, por meio deste diálogo, inspiração. O importante nesse primeiro momento é saber o que te inspira e buscar essa inspiração.
É fato que as obras de Eça de Queiroz serviram de inspiração para Machado de Assis, assim como Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle foi inspirado nas obras de Edgar Allan Poe, entre tantos outros. Então percebe-se que este diálogo que chamo de diálogo literário se faz muito importante dentro da criação artística, pois novas ideias surgem, mas que fique bem claro que nem sempre este diálogo acontece de forma eficaz, vai depender muito do olhar do próprio artista sobre as obras ou propriamente o mundo. O importante é não se sentir pressionado, deixar a coisa fluir naturalmente.
Há praticamente 22 anos, quando morava em Feira de Santana-Ba, conheci Roberval Pereyr, que seria apenas o meu professor de literatura na Universidade Estadual de F. de Santana. Naquele momento, não era possível saber que além de professor, Roberval Pereyr era também Poeta, compositor, desenhista, teórico e editor. Alguém com uma experiência e conhecimento vasto em literatura, e que me fez conhecer vários autores, entre eles Rollo May com o livro: A coragem de criar, o qual trouxe um acréscimo incrível à minha vida.
No decorrer de sua disciplina, criamos uma amizade muito salutar, pois eu era muito interessados em suas aulas e assim ganhei sua admiração, mas após o termino de sua disciplina, tive que trancar a faculdade e retornar a Belém-pa. por motivos familiares. Porém 13 anos depois, com o surgimento das redes sociais, retomo o contato com Roberval Pereyr, e que para minha surpresa, ainda se lembrava de mim e fez questão de me enviar duas de suas obras (Mirantes e 110 poemas) obras grandiosamente incríveis, as quais vêm tendo uma importância significativa em minha vida como poeta e escritor.
Costumo dizer que o poema é minha oportunidade de conversar a sós com alguém que não conheço, mas que se faz presente em meu crescimento literário, e assim são essas duas obras grandiosas de Roberval Pereyr, presenteadas a mim com muita estima e que costumam dialogar comigo sempre que as leio, me trazendo à luz ideias fantásticas e construtivas, pois se tratam de obras muito bem escritas e que contêm em sua essência um vasto mundo a ser contemplado.
Quero aqui parafrasear Valdomiro Santana, Juraci Dórea e Antônio Brasileiro para resumir essas duas obras de Roberval Pereyr, dizendo que experimentar a leitura dessas obras aumenta nossa potência e capacidade de agir, de viver, de criar, que é resistir a todas as forças que nos querem fracos, tristes, servos e tolos, pois se trata de um território selvagem e paradoxal, céu e inferno, vida e morte, ordem e caos, e que nos traz, por meio delas, toda a essência de seu autor, como também, seu talento e sua incontestável vocação.
LEQUE
A Luciano Rodrigues Lima
O perfil dos dilemas?
Vai depender da luz
E do pano de fundo:
Pode dar em poemas,
Pode erguer uma cruz
Ou negar o mundo.
Roberval Pereyr
CANTIGAS
Mares do avesso
Navego.
Perigoso, o ego
mil endereços me dá.
São falsos, eu sei, são falsos.
Mas é bom navegar.
Roberval Pereyr
OPOSTO DO FIM
Na selva das palavras, poemas
Cães famintos dentro de mim
São feras dilacerando dilemas
No caminho oposto do fim.
São mitos, deuses, são fêmeas
São vozes que ecoam em mim
Um habitar das coisas extremas
Ou verdades querendo fluir.
Jorge A. M. Maia