Último mês do regime militar, implantado por 21 anos no País.
O ciclo de excepcional mando militar terminava.
E lá, apesar dos altos muros, da falta de energia e da completa escuridão, dentro de um cubículo dois por dois, podia-se escutar o barulho de vida do lado de fora. O carnaval parecia nem saber que eu existia.
Numa tentativa frustrada de ludibriar a terrível sensação de falta de espaço e movimento, na cela solitária da penitenciária do Estado de Roraima, apenas relembrava, minuto a minuto, os últimos acontecimentos que culminaram com a minha prisão. Em um mecanismo alucinado, trazia para junto de mim as pessoas e as coisas que me eram realmente importantes na vida, minimizando assim a dor e a solidão.
A detenção havia ocorrido na base aérea de Boa vista, quando dialogava com o Comandante daquela unidade. Por decisão judicial, o Governo Federal, através da Polícia Federal, havia conseguido de um juiz dos territórios o mandado para minha prisão, sob a alegação de desobediência e resistência.
No afã de deter a onda de reivindicações que eu iniciara, logo embasaram esse pedido invocando a “simpática” causa indígena.
Tenho quase certeza de que o comportamento dos militares que guarneciam a penitenciária, assim como o do carcereiro de plantão, que se recusara a “corrigir-me”, o que no jargão penitenciário significa revistar, fizeram com que eu fosse direto para a triste e incomunicável solitária. A polícia militar, ao aplaudir minha entrada, nalguma medida referendou e avalizou minhas atitudes. Por isso, o imediato telefonema do delegado Federal para o General Governador do Estado, relatando a recepção, resultou como castigo, total incomunicabilidade e isolamento.
Eu e minha equipe, com aproximadamente 650 homens, havíamos chegado ao ainda território de Roraima, em busca do que acreditávamos ser nosso, há muito tempo. Tínhamos visto e acompanhado toda a movimentação, desde outubro de 1984, no sentido de transferir, à força, propriedades que eram de garimpeiros, produtos de seu trabalho, para a Companhia Vale do Rio Doce, em 1976.
Houve pacífica e passiva aceitação pelo fato da Vale, à época, pertencer à União. Incrivelmente, porém, ela entregou um relatório ao DNPM. (Departamento Nacional Produção Mineral) devolvendo a cessão ao governo, dizendo que ali não existiam riquezas que fossem economicamente viáveis ou passíveis de serem exploradas.
A surpresa que a devolução da área e o relatório causaram a todos que conheciam a província mineral do Sistema Parima, fronteira com Venezuela, provocou alerta geral do possível e irregular desdobramento que se antevia. Realmente, no dia seguinte ao da desistência, a posse passava a uma empresa mineradora, cujos donos eram parentes, filhos e gente ligada à presidência da estatal. Isso provocara em todos nós um extraordinário sentimento de revolta, criando, na comoção do momento, uma reação, que hoje, possivelmente seria diferente.
Sabíamos que as atitudes que estávamos tomando em reocupar as áreas que haviam sido tomadas de forma abrupta e truculenta em nome do, e para, o Estado, nos levaria a perder a razão, estimulando um conflito pelo qual acabaríamos, no mínimo, na cadeia.
Estupefato mais ficava porque, quatro meses antes, em agosto de 1984, no dia do soldado, em Manaus, recebi comenda do Exército Brasileiro, que me distinguia e acentuara minhas ligações com aquela força. Parecia estranho que, tão pouco tempo depois, o amigo do Exército estivesse na cadeia e mais estranho o que a perda da liberdade faz ao espírito.
Até chegar ao presídio, exercia meu trabalho e minhas atividades, prestando atenção em tudo e todos, mas de modo ensimesmado. Jamais tivera preocupação em transmitir nada a outros. Pelo contrário, achava o povo da Amazônia, eu incluído, não devia dar satisfações de nada ao Estado organizado. Não tínhamos que apresentar problemas ou buscar soluções e, muito menos, procurar políticos que toda a vida esteve longe de nós.
Imaginava que se nada vinha mais bem nada ir.
Não tinha, sequer, consciência segura que de, lamentavelmente, o fato de nunca procurá-los não criava neles a obrigação de nos representar. Não tínhamos compreensão de que as leis que faziam nos eram impostas, até graças à nossa omissão e revelia, seja com relação àqueles que haviam sido eleitos, seja com os que tínhamos permitido que o fossem.
Minha prisão se deu dentro desse clima de incoerências e no choque contra esse mirabolante Estado.
Sina do destino, talvez, que ali encontrasse fértil terreno para a construção de um espírito de união e de reação inteligente. Usando a capela do presídio para nossos encontros, acontecia uma nova formação de idéias.
Por sorte, o abandono da solitária não durou mais de quatro dias, mas, assim mesmo, posso garantir a todos que, ao bater aquela porta de aço no cubículo do horror, a valentia da gente fica um tanto sofrida e apagada, embora acalmada por mais 31 dias de cadeia “comunitária” .
Só a pose fica; falta até ar… Que experiência!!!