Até a ONU que tem como missão principal a união e pacificação entre os países membros falhou. Promoveu uma Assembleia Geral que, na minha opinião de não especialista, deveria ter sido destinada a tentar a conciliação e transformou-se em uma sessão de acusações mutuas. Outra coisa que sequer foi cogitada foi o pedido de ambas as partes para a intervenção do Tribunal Penal Internacional para apurar atentados aos direitos humanos e que deveria ser implementada imediatamente, o que ajudaria a esclarecer parte das acusações mutuas.
Todos as nações que dependem do comércio internacional, hoje globalizado, ficam em uma situação extremamente delicada quando lhes é pedido para tomar partido, porquanto devem se manter em uma posição que não fira a suscetibilidade de nenhum dos países envolvidos no conflito, os ânimos estão acirrados e quando isto ocorre a tendência é a ausência do bom senso.
Vejamos especificamente a situação do Brasil. Como brasileiro e amazônida, é imperativo que relembre a todos do alerta que divulguei em 08/01/2022, bem antes do atual conflito, com o artigo “Intervenção internacional na Amazônia”, publicado na Gazeta do Amapá que para os que não leram e para relembrar os que leram seguem alguns trechos:
“Também recentemente pudemos testemunhar alguns fatos que deveriam nos deixar de ‘orelhas em pé’. Em 25/09/2021 foi publicada uma matéria sob o título ‘ONU apela para países do Conselho de Segurança na luta contra as mudanças climáticas’, pelo site RBA-Rede Brasil Atual, que transcrevo parte do texto:
“O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, convocou uma reunião na última quinta-feira (23) com os Estados-membro do Conselho de Segurança da ONU — em pauta, a preocupação do órgão com as mudanças climáticas. O encontro fez parte de uma série de iniciativas que antecedem a 26ª Conferência sobre as Alterações Climáticas (COP 26). O evento mais importante sobre crises climáticas desde o acordo de Paris de 2015 está previsto para novembro, em Glasgow, na Escócia. “Nossa janela de oportunidade está se fechando rapidamente”, argumentou Guterres.
O argumento central de Guterres para o alerta partiu do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O documento divulgado no dia 9 de agosto traz uma série de estudos e métricas que apontam para a irreversibilidade dos danos provocados pelo ser humano no equilíbrio do clima. “É necessária uma ação climática muito mais ousada para manter a paz e a segurança internacionais”, disse Guterres aos líderes dos cinco membros permanentes do Conselho e mais 10 eleitos com mandatos de dois anos.
Guterres alertou que o mundo passa por um período de enchentes e incêndios. Os eventos extremos devem ser cada vez mais constantes sem uma ação dura no sentido de reduzir bruscamente a emissão de gases do efeito estufa. “Nenhuma região está imune e a crise climática é particularmente profunda em situações onde existe agravamento por conflitos”, disse. Diante disso, ele instou que os países ampliem significativamente os esforços, em especial países do G20, grupo das 20 maiores economias mundiais com maior grau de industrialização.
A reunião contou com mediação do primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, que destacou a importância do Conselho de Segurança assumir uma posição de protagonismo nesse enfrentamento. “As pessoas afetadas por conflitos causados pelas mudanças climáticas dependem da liderança deste Conselho. Agora é o momento de agir”, disse.
Guterres, por sua vez, saudou a fala de Martin, e apontou para resultados já alcançados em locais de influência do Conselho. “O Mecanismo de Segurança Climática está apoiando missões de campo, equipes nacionais e organizações regionais e sub-regionais. O trabalho está ganhando força em países e regiões onde o Conselho de Segurança reconheceu que as mudanças climáticas e ecológicas estão minando a estabilidade”, finalizou.”
O fato do Conselho de Segurança da ONU ter apreciado a proposta da Irlanda, que continua a ser um país membro da UE, e do Niger, um país africano com grande influência europeia, de transformar a questão climática como de segurança internacional é preocupante. Caso o Conselho tivesse aprovado, a Amazônia ficaria no centro da questão em razão da sua alegada importância para o clima do planeta, seria declarada área de segurança internacional e o próximo passo seria a intervenção das forças de segurança da ONU. Decisões desse gênero carecem de unanimidade. Felizmente a Rússia vetou a proposta, a Índia votou contra e a China se absteve, os 12 demais países do Conselho foram favoráveis, inclusive os EUA. Cada vez mais a possibilidade de intervenção na Amazônia por forças armadas estrangeiras deixa de ser uma mera teoria conspiratória.
Vejam bem, os três países que se posicionaram contra a resolução foram justamente os parceiros do Brasil no BRICS – Rússia, China e Índia, todos os demais membros do Conselho de Segurança da ONU foram favoráveis a transformar a questão climática como de segurança internacional. Como estaríamos hoje se não tivesse havido oposição? Não pretendo esmiuçar as razões do conflito no Leste europeu que se tornou um embate entre Rússia e Ucrânia ajudada pelos EUA e países da OTAN através do fornecimento de armamentos.
A situação se complicou, o nosso agro depende em grande parte do fornecimento de fertilizantes da Rússia e a China é o melhor cliente hoje da nossa produção rural. Paralelamente o movimento de exportações e importações entre o Brasil, a UE e os EUA precisa ser mantido a despeito do Reino Unido ter aprovado legislação que cria barreiras ambientais aos produtos do nosso agro, barreiras que o Parlamento Europeu e o Congresso dos EUA pretendem seguir, ou seja, de sanções e restrições entendemos há muito. O que nunca deve ser esquecido é que com ou sem guerra a cobiça sobre a Amazônia continua.
Naturalmente, todos nós lamentamos profundamente a perda de vidas de nacionais dos dois países que estão envolvidos diretamente em uma guerra trágica, independentemente das causas, em pleno século XXI.