Sessenta dias depois, sentado no mesmo aeroporto em cima de um balcão, vi se aproximar um homem bem-vestido, rosto bem escanhoado, e um rapaz também vestido com apuro, limpíssimo, carregando um rádio enorme, com dois imensos alto-falantes na frente, moda naquela época. Olhei, e disse para mim mesmo que o sujeito queria aparecer com aquele aparelho exagerado. Cuidadoso, comentei estar ele a fim de estourar os ouvidos com aquele rádio. Ele, com um sorriso, perguntou se eu tinha gostado. Eu ia lhe dizer que não. O rádio era apelativo e tal. Então acendeu uma luzinha, decidi agradar o rapaz. Disse-lhe ter gostado do monstrengo. O velho olhou-me nos olhos e afirmou havê-lo trazido para mim. Surpreso, lhe agradeci e quis saber o motivo. Ele sorridente afirmou que eu não estava me lembrando dele por causa de sua aparência haver mudado muito. Eu o havia levado, juntamente com os filhos para Serra. Viera pagar as passagens e trouxera o rádio de presente. Disse-me que, no meio daquela gente ambiciosa, eu fora o único que mostrara ter na cabeça um pouco de coração. Completou: “o senhor, embora não pareça, é sensível. Notei que, ao ser chamado, para na hora, e ouve, não interessa quem esteja chamando”. Afirmou achar isso uma qualidade admirável em um homem. Depois desses elogios, o elegante senhor tirou do bolso uma sacolinha e entregou-me. Pesava meio quilo, calculei na hora e observei serem quinhentos gramas de ouro. Ele me devia pagar apenas o combinado. A resposta veio com um grande sorriso: “Seu Zé, tirei oitenta e seis quilos de ouro. Pode aceitar que para mim não vai fazer diferença, e eu vi que o senhor está precisando fazer a reforma do motor do avião. O senhor estava dizendo a alguém que vai para o Sul, e eu não vi aquele seu avião aí. Isso é para ajudar a fazer o que for preciso, custos estão altos”.
Aceitei muito agradecido, com um obrigado verdadeiro. Antes de se despedir emocionado, olhos úmidos, o homem ainda comentou: “Agora estou indo para casa. Vou abandonar esta vida. Minha mulher sofreu demais com minha ausência. Vou sumir daqui e cuidar da minha família, descansar, “seu” Zé. Deus foi bom comigo, eu ainda tenho um resto de vida saudável pela frente para aproveitar esta pequena fortuna que ganhei. Muitas felicidades, para o senhor, que fica. Decidi comprar uma fazendinha e viver com meus filhos no Maranhão, próximo a Grajaú”.
Cerca de quatro meses depois, no aeroporto, deitado em baixo do avião lubrificando o trem de pouso e ouvi uma voz que me soou conhecida: “Seu José, estou querendo entrar com o senhor. Vai voar para lá que hora?” Virei-me e reconheci o velho Geraldo de novo. Queria entrar para Serra comigo. Iria fazer compras, e queria o voo… O que haveria ele de querer?
Daqui saíra com mais de oitenta quilos de ouro, seria difícil repetir a façanha. Dissera ir descansar, ficar com sua esposa que deixara abandonada tanto tempo. Adivinhando meus pensamentos, explicou-me que não conseguira conviver bem quarenta dias com a família. Amava a mulher com loucura, mas pelo telefone, recado e carta no correio. “Hoje, na cama, o carinho é estranho, o sexo é ruim. Fiquei em casa e não aguentei”, explicou. “Aquilo, não é vida para mim. Nas ruas, vi automóveis que nunca tinha visto, e diziam que tem mais de dez anos que o Brasil estava fabricando, e eu nem sabia. Minhas filhas se engalfinharam por causa de dinheiro. Casaram com uns picaretas do Grajaú. Propus comprar uma fazenda, eles já brigaram para ver como é que ia dividi-la. O senhor quer saber de uma coisa? Dei tudo a eles. Não tenho nenhum amigo na minha cidade, estão todos aqui. Não gosto de ninguém lá fora, minha vida é aqui, o povo que conheço e confio está aqui, minha família, não aquela, que é de Deus ou do demônio, sei lá! Mas, vou escrever para eles, mesmo assim.
Deixara a fortuna para a família
José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.