E por falar em cheiro, as flores coroam de bondade, benevolência, amores e saudades a recordação de cada um. Elas precedem, no inconsciente, algo de puro, limpo, natural. Leva-nos de volta “pra casa”.
Não precisa ser adepto ao romantismo reminiscente dos antigos, basta cheirar o ar de um jardim. Não à toa, deu- se o Éden, como cenário perfeito do início de tudo. O intuito, parece-nos, é entender a relevância da cartilagem do centro do rosto.
O nariz e o sistema respiratório carregam, em si, a briosa função de manter a paz! Quando nada o ser humano mais puder, “usa o cheiro”: passa o ar para dentro, segura um momento e passa o ar para fora. Ainda assim, o danado disparate da rotina nossa de cada dia deixou tudo passar por cima do respirar.
Afundados em confusão, o que menos conseguimos é expandir o peito e, lentamente, soltar. Ainda que a vida humana, neste planeta, comece e termine com esse movimento, ele – o respirar – continua sendo ardilosamente subestimado.
Poucos conseguem usufruir, no corre do dia a dia, aquele poder inato. Geralmente, o que impregnaram, no entendimento da maioria, é que o “cheiro” denota situação reta ou ardil: ou cheira bem ou cheira mal.
Esse reducionismo só atrapalha. Contribui com o esquecimento ou o desmerecimento do “cheirar”. Quem nunca, que jogue a primeira pedra, guardou, na memória, um encontro que cheirou bem? E quem nunca escapou de um acordo que cheirou mal? E só? Não…
Em tempos de aflição, a paz vem do interior. O único domínio que se apreende é o inspira-expira. A torrente emocional dos dias vividos suprime, se descontroladas, o exalar humano, de propósito. De curta respiração, o ser bafeja e consome drogas, cujo fim é conter a tormenta de inquietação, de tribulação.
Em tempos de aflição, a paz vem da respiração. Porém, enquanto não se esquece o motivo da sofreguidão, o valor da respiração é inútil. Aí reside a dualidade da existência: encontrar a harmonia interna, habitando no desalinhamento “externo”.
O respirar faz parte dos procedimentos automáticos, do sistema nervoso autônomo, em nível celular também. Além dos benefícios fisiológicos à preservação existencial física, ocupa real espaço na saúde mental daquele que dele bem utiliza.
O ocidente começou a conhecer a grandeza do respirar, mesmo com o Oriente dela obtendo benesse secular. Daqui, afundados em problemas, os viventes mantêm a passividade de permanecer com psicotrópicos.
Arrojados, entendendo que é ou “pra cheirar” ou “pra puxar o ar pra dentro”, abreviamos a função primordial do respirar, a de parar e focar. A atenção plena nos movimentos da respiração é o maior dos sedativos e a constância, o maior dos antidepressivos.
O que, de fato, o esquecimento provoca, o cheiro rememora. O olfato complementa mesmo a lembrança, porque guarda intimidade com as sensações do corpo e da alma.
E por que o cheiro das flores? Acima de tudo, porque elas esbanjam aroma de paz, aquela que excede todo o entendimento. É o transporte de volta “ao íntimo lar”.
Não tem jeito, a Inteligência Divina cuidou de nos entregar remédio de grande poder que afasta as causas das perturbações psíquicas: o respirar.
Disfarçado de cheirador, entrega vida, permanência e evolução da espécie humana. Pena que só as flores cheiram a flores.