– “O que os deixa feliz ao me ver”, Ele pensou, “é que me enxergam com os olhos da alma no momento em que o dom se manifesta neles, pois nessa hora estão cheios de amor. O amor lhes dá alegria, felicidade, plenitude. Se se deixarem tomar pela tristeza, pelo desprezo, sobretudo pela raiva, jamais poderemos nos ver. Nesse instante eles estarão distantes da lembrança da pessoa amada, e isso me impede de assumir as feições dela, fazendo com que eles no máximo possam sentir o perfume de nossas vibrações, mas não os deixa, assim como me impede, de que possamos nos regozijar em presença um do outro.”
Ao consultar sua agenda, Ele viu que era sua missão descer à Terra para visitar uma país chamado Brasil. Constatou que não seria fácil a tarefa, porque o Brasil passava por uma fase de enormes preocupações e tristezas. Era imenso o contingente de pessoas que estavam com o coração tomado pela dor da perda de entes queridos. Mais de meio milhão de pessoas haviam morrido por causa de uma infecção viral que estava varrendo todo o planeta. Havia luto e justificada dor na multidão que ficara na Terra a prantear os que se haviam ido. Entre esses, essa multidão de mortos, nos seus espíritos agora libertos do invólucro material havia dificuldade em poder assumir suas funções na dimensão para a qual haviam sido transportados. A dor da saudade que havia entre eles e os sobreviventes impedia-lhes que pudessem livremente ascender para o estágio de vida plena e abundante.
– “Curioso”, ele pensou. – “Os registros mostram que o povo desse país se destacava entre muitos pela sua alegria, pelo otimismo, pelo amor às artes, à música, pela religiosidade. Até pelo esporte, sobretudo o futebol, que chegou a levar multidões para as ruas a celebrar vitórias da sua Seleção…”
Ele pensou em pedir ao Pai que lhe desse mais tempo antes de descer ao Brasil para cumprir a missão de ajudar a trazer de volta a alegria ao país, agora tão triste. – “Mas, não” – decidiu. –“As ordens do Alto devem ser obedecidas sem questionamento.” E assim pensando, alçou voo e flechou rumo ao Brasil.
Pousou numa cidade que o povo chamava de Maravilhosa. Até mesmo um anjo como Ele, acostumado a ver cenários deslumbrantes nos páramos celestiais, gostou do que viu. – “É”, pensou, – “não há exagero desse povo em chamar esse local de Cidade Maravilhosa. As paisagens são lindas, com essa combinação de mar azul, de praias com areias claras, de morros a delinear o horizonte. Que lindo aquele monte com uma estátua grande de homem com os braços abertos em cruz, a simbolizar o Filho do Altíssimo! É aqui que dizem que uma vez por ano o povo, com um bando de gente que vem de outros lugares do mundo, sai às ruas para a grande celebração do carnaval…”
Os anjos movem-se com a velocidade do pensamento, que é muito maior que a da luz. No norte do Brasil, região de florestas infinitas e de rios que são oceanos de água doce; no nordeste, o contraste entre o litoral de praias de areia alva, serras e caatinga, cidades grandes e pequenas, com seu povo trabalhador; o centro, com seus planaltos e exuberante pantanal; o sul, com uma megalópole e cidades com jeito europeu, seus cavaleiros e operários, milionários e miseráveis. Tudo isso Ele pôde ver em sua exploração preliminar sobre o objeto de sua missão.
– “Deve haver alguém responsável pela condução dos destinos desse país outrora tão feliz e agora um mar de lamentações. A tristeza geral é tanta que ainda não consegui fazer contato com nenhum brasileiro.”
-“Segundo os arquivos, o líder desse país é chamado presidente. Mas quando estive lá no palácio em que ele trabalha, o que vi foi um humano que não percebeu nada da minha presença. Nem mesmo eu me esforçando para exalar o máximo de vibrações perfumadas. Só dá para concluir que não me será possível fazer contato com o presidente. A razão para isso é muito triste, mas me ocorre que só pode resultar do fato de que ele talvez não ame ninguém além dele mesmo, e que isso poder ter acontecido durante todo o tempo em que está cumprindo sua passagem na Terra.”