O termo cegueira é utilizado normalmente para indicar a total incapacidade visual, entretanto, alguns autores usam-no para englobar também a presença de certa capacidade visual. Diante disso, existe uma dificuldade em encontrar uma definição exata dessa condição, por isso, essa noção pode variar de acordo com o autor analisado. E a saber que a cegueira está relacionada com o verbo ver que em seu próprio conceito significa: Perceber pela visão, enxergar, contemplar. Desta forma, é bem fácil de entender que a percepção, o enxergar e o contemplar não são unicamente sentidos dos olhos, tornando assim, a cegueira puramente subjetiva.
O Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998, O escritor português José Saramago, nos deu em sua obra “Ensaio sobre a cegueira” uma visão bem realista do que realmente é a cegueira. É uma obra que foi considerada pelo próprio autor como sendo difícil de ser escrita, realizada sob intenso sofrimento e, segundo Saramago, ele desejava, com todas as letras, que o leitor sentisse tanto sofrimento ao ler quanto ele teria sentido ao escrever, e teve que reconhecer que a única adaptação que foi feita deste livro, trouxe, nas palavras do autor, uma imensa satisfação, comparável ao momento em que acabou de escrever o livro.
O enredo se inicia em uma cidade, onde um motorista, parado em um sinal de trânsito é, de repente, acometido de uma cegueira repentina. Foi como se uma névoa branca, uma treva branca, tomasse conta de seus olhos. A história segue falando sobre a cegueira e mostrando que o motorista foi o primeiro a ser acometido, a primeira vítima daquela que seria a mais terrível das epidemias jamais enfrentadas por aqueles que viviam na cidade.
A cidade estava sendo acometida por uma pandemia em que todos estavam ficando cegos e tendo que lhe dar com uma cegueira contagiante. O médico, que consultou várias pessoas da cidade que estavam ficando cegos, quando estava prestes a se deitar, cegou. Com cuidado para não acordar a esposa, deitou-se, mas passou a noite toda em claro. O dia amanheceu e ele avisou a esposa sobre a cegueira. A mulher do médico tentou consolá-lo com um abraço, mas ele se afastou temendo contagiá-la. Cego, precisou de ajuda da esposa para ligar para seu local de trabalho para tentar avisar sobre a epidemia que aparentemente se alastrava para que a sociedade pudesse ser alertada.
A segregação é um ponto forte no livro, pois as autoridades enviaram os infectados para uma instalação que, no passado, havia servido de manicômio para agora abrigar os doentes da epidemia. O lugar tinha a vocação de se tornar tenebroso. No entanto, entre tantos cegos naquele lugar, havia uma única pessoa que conseguia enxergar, a única que não contraiu a doença entre tantos cegos, era a mulher do médico.
Ao acordar, a mulher do médico percebeu que às vezes enxergar pode ser algo muito ruim, pois ela teve o desejo que também estivesse cega, ao ver tanta sujeira. Bom ou não? Uma grande benção ou uma total desgraça? O quanto se pode achar bom enxergar tudo que possa estar acontecendo? Como uma fatalidade ou sorte, podemos, de alguma forma, ver tudo que se passava. Pensando assim, o quanto é bom para nós, seres humanos, assistirmos barbáries diárias no meio da rua?
Muitas vezes é preciso fechar os olhos para enxergar melhor o que passa em nosso redor e para sentir as coisas de forma mais efetiva e verdadeira. Todo o sentimento trazido em um beijo, é sentido porque se beija com os olhos fechado, a melhor concentração é feita de olhos fechados, e é desta forma que se consegue se deligar do mundo e de suas terríveis imagens que nos mostram que o colapso será iminente e as pessoas não se dão conta disso, pois a cegueira não dá trégua e vai fazendo suas vítimas mais rápido do que possamos imaginar.
Os olhos do poeta são olhos da imaginação que independem da visão externa. Esses olhos podem, sim, ser usados para tirar a cegueira de muitos. E neles, existe uma sensibilidade totalmente diferente. Enquanto o ser comum se distrai levantando os olhos para uma paisagem ou uma cena, o poeta fixa-se num ponto de luz para absorver melhor o conhecimento e parece estar sempre em êxtase em seu mundo.
“Ninguém derrame a lágrima ou reprove
Esta declaração magistral de Deus
Que com perfeita ironia me deu
De uma só vez os livros e a noite.”
(Jorge Luis Borges)