Anteriormente, os poemas estavam intimamente relacionados à música. No trovadorismo, as principais produções poéticas foram as cantigas líricas (Amor e Amigo) e as cantigas satíricas (Escárnio e de Maldizer) e assim, as cantigas trovadorescas eram produzidas para serem cantadas, enquanto as poesias palacianas, para serem declamadas. Foi durante o humanismo que o texto poético começa a adquirir sua independência, ou seja, os poemas deixaram de ser cantados, mas não perderam suas rítmica e melodia, sem dizer que a poesia palaciana foi desenvolvida a partir do século XV dentro do movimento literário denominado Humanismo, e recebeu esse nome pois ela era produzida nos palácios e estava destinada aos nobres.
Há uma pequena polêmica no mundo da música, e apesar de ser uma polêmica, considerada por muitos, obsoleta, ainda costuma ser feita com frequência para poetas e compositores, é se existe diferença entre poesia e letra de música. Contudo, há pessoas que acham que letra de música é uma coisa e poesia é outra completamente diferente, como também há outros que pensam o contrário. Fica claro, portanto, que diferentes categorias de poesia sobrevivem em diferentes suportes, mas nem por isso deixam de ser essencialmente a mesma matéria: poesia; e a letra de música é apenas mais um tipo de poesia cujo suporte é a melodia. Entretanto, os poetas e músicos já nem se importam com isso, apenas fazem seu trabalho o melhor possível, seja ele o que for.
Uma canção é sempre a junção entre letra e melodia. As letras são frequentemente escritas por um poeta ou letrista em forma estrófica, já a música é feita separadamente por um compositor. Desta forma, percebe-se que uma canção tem, em sua essência, um teor literário muito forte, pois cada canção tem dentro de si, como parte importante da arte, a poesia, fazendo, assim, com que a literatura seja uma arte polissêmica e polifônica, que dialoga constantemente com outras artes. Com isso, sabemos que a música e a literatura sempre estiveram correlacionadas com a história da humanidade, desde a antiguidade o texto literário adapta-se à música, bem como a música adapta-se ao texto literário, mais precisamente ao poema.
A canção (junção entre letra e música) possui uma característica de versatilidade que a permitiu passar por diversas mudanças ao longo do tempo, assimilando novas tecnologias, novos padrões estéticos e novas funções sociais, mas sempre mantendo seu extraordinário poder comunicativo. Ela é uma forma expressiva de ampla inserção social.
E todo esse poder, se dá por conta do teor artístico-literário permeado dentro de cada canção, na qual todos os seus elementos constitutivos (letra, melodia, acompanhamento instrumental, performance etc.) guardam uma relação dinâmica. Deste modo, o texto não pode ser dissociado da melodia, assim como ambos não podem ser considerados de maneira abstrata, mas em sua interação plena no momento da performance, seja ela presencial (em uma apresentação ao vivo) ou mediatizada (capturada e transmitida por meios tecnológicos).
De acordo com José Miguel Wisnik, “uma coisa que tem sido observada já há algum tempo é a importância poética que a música popular no Brasil ganhou. Ela não é palavra cantada que serve para o entretenimento de massas enquanto mercadoria em série, ouvida e descartada na estação seguinte. Na música popular do Brasil, pode-se dizer que existe um conjunto de autores, de poetas-cantores que estão desenvolvendo uma obra que resiste à passagem do tempo, ao contrário dos bens de consumo descartáveis.”
Há vários artistas que transitam entre a poesia do livro e a poesia cantada. E nesse transitar, acabam por produzir lindas canções, canções estas que percorrem décadas e gerações. Canções de belas letras e melodias que permeiam a imaginação e barulham no silêncio da alma.
CARTOLA
O mundo é um moinho
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó.
NOEL ROSA
O orvalho vem caindo
Meu cortinado é um vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda civil
(Que o salário ainda não viu!)
O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu
e também vão sumindo, as estrelas lá do céu.
JORGE MAIA
Expostos ao amor
Deixe expostas as tuas costas
Pra que eu possa te abraçar
Eu te encontrarei pelo teu cheiro
Se a luz do quarto se apagar.