Fala-se muito em empatia, generosa galhardia. Fala-se justamente para dizer que nós brasileiros perdemos a capacidade de amar, olhar para o colega, o amigo ou o desconhecido, humano tal qual e tal, com afeição e delicadeza. Fala-se; portanto, da falta de empatia.
Fala-se para denunciar os feitos e defeitos de atos hiperbólicos de poderosos governantes de comarcas e nações, de empresas e instituições ou de uma boate qualquer, talvez fumantes de substâncias intoxicantes da mente e do coração, envenenando a transpiração, o ritmo das pulsações e do raciocínio, alimentados pela soberba e ganância.
E eu aqui ouvindo o Chico Buarque, sinto-me privilegiada, abençoada por constatar que na música popular brasileira, um compêndio de poemas, se encontra outro rio para navegar repleto de sentimentos da fruição do bem querer.
“E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar”.
E a beleza de sentimentos de nosso povo não se encontra apenas nas letras de músicas. Ela é contagiante. Está em páginas e páginas de poetisas e poetas espalhadas do Nadir ao Zefir. Um coro emocionante. Em Rondônia encontro uma mineira que é a expressão da sensibilidade de sentimentos na poesia, a professora Tânia Rocha Parmigiani.
Seus versos soam como faróis para almas puras.
“Reinventemos o tempo da delicadeza.
O silabário da ternura.
O inventário dos gestos puros.”
Ela expressa esse anseio das milhares de almas brasílicas de sorrisos acolhedores, abraços contundentes, gestos afetuosos; almas sufocadas sob o manto da hipocrisia dos que conduzem as políticas destruidoras da alegria e da dança de corpos e mentes em bailados coloridos que destoam da dolorida inércia do subserviente.
“Pronunciemos a eternidade
na simbologia silenciosa dos olhares.”
Sim, poetisa da conexão dos sentimentos com o sublime, sim. Enquanto houver poetas nem tudo estará perdido.
Nota: Gente Humilde, canção de Chico Buarque, 1970.
Poema O Tempo da Delicadeza, Tania Rocha Parmegiani, 2024.