Na internet, infodemia.
Essa palavra nova e estranha resulta da ligação entre informação e epidemia.
Imagine as ondas do mar atingindo a praia. Essa é boa metáfora para a compreensão da infodemia: representa as tantas e tantas informações que, como ondas em infinita sequência, nos atingem dia e noite, em cada fração de tempo.
Mal recebemos uma, outra nos chega. Não raro, uma desmente a outra e pela seguinte é desmentida. Isso nos deixa em situação delicada, já que somos alvo de ondas sucessivas de opiniões e informações – algumas sem boa fonte ou inverídicas.
Recebemos dados de todos os lados e sobre praticamente tudo, permanentemente.
Boas ou ruins, em certa medida todas se misturam, nos atingem, iludem e confundem.
Faço uma parada na narrativa para registrar que, via internet, temos facilidade de acesso a seguros textos científicos e a jornais e boas fontes de informação, embora para isso seja necessário dedicação, tempo e disposição para a leitura.
Como isso dá algum trabalho e é “chato”, grande parcela fica mesmo na superficial facilidade que nos proporcionam os textos com poucas palavras e as conversas, através de aplicativos de celular.
A realidade e o cotidiano, contudo, nos proporcionam muitas opiniões forjadas por “especialistas” graduados nos sites de busca.
Para esses, a conclusão parece que chega antes do estudo!
Os anos de faculdade e cursos de especialização, mestrado e doutorado ficam em segundo plano, ante a opinião de Fulano e a experiência vivida pela tia do sogro da Beltrana.
Para muitos, isso parece superar o aprendizado dos profissionais formados em medicina, direito, química, design, engenharia etc
Se fosse só isso, a cada um conforme o seu juízo.
Contudo, a questão é bem mais complexa.
Setenta por cento (70%) dos jovens com 15 anos de idade não sabem a diferença entre os fatos e as opiniões!
A conclusão foi divulgada no ano passado, por relatório da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade sediada na França e que conta 38 países.
O número é assustador e a seu respeito deve ser registrado que o percentual de muitos países está em torno de cinquenta e três por cento (53%).
Alguns poderão cotejar esses números com o nosso e concluir simplesmente que estão em melhores condições do que nós. Penso que isso não faça a menor diferença! Como se pode considerar minimamente razoável a situação dos países que tenham as “melhores” médias, quando isso corresponde ter metade dos jovens sem condições de distinguir o fato de mera opinião a seu respeito?
No livro O Colóquio dos Cães, personagem de Miguel de Cervantes “considerava que não devia ser verdade o que tinha ouvido contar da vida dos pastores”.
Essa dúvida razoável ocorreu há cerca de 500 anos! O mesmo autor de Dom Quixote explorou o senso crítico daquele personagem, que vivia em bucólica vida no campo, num tempo em que as informações não eram tantas e maciçamente jorradas sobre as pessoas, como hoje. Mesmo assim, ele não acreditou no que ouviu e criticamente duvidou do que lhe contaram.
A frase destacada revela a indagação e a incerteza diante de única narrativa e sobre apenas um fato. O que não diria o personagem, se vivesse hoje?!
Mesmo assim, metade (metade!) dos jovens com 15 anos, nos países pesquisados, não sabem distinguir um fato de uma opinião. Hoje, conscientemente, deveria haver múltiplas indagações em tantas dessas mentes, enquanto parece que há mais “certezas” do que dúvidas. Saudades do Sócrates, grande sábio e pensador, que dizia “só sei que nada sei”.
Cada época tem as suas idiossincrasias. Essa é palavra bonita, empregada para indicar as doenças de cada tempo. Apesar de convivermos, ainda, com vírus e bactérias, parece que também sofremos com era das trevas, onde a música do Flautista de Hamelin é suficiente para enfeitiçar os jovens e os levar para longe. Quem dera o som da flauta fosse aquela que nos levaria à razão, como descrevem os inspirados versos da música Stairway to heaven, do Led Zeppelin (“Then the piper will lead us to reason”).
A enfermidade da nossa Era é a encruzilhada do tempo, talvez melhor representada pela ideia do seu desperdício. Somos prisioneiros de cenário digno da Divina Comédia, de Dante, no qual círculos e portais não celestes são o espaço-tempo da soberba, da vaidade, da futilidade, da heresia e da luxúria. Personagens imersos numa “dispersão” generalizada no livro e na vida moderna.
Parece que, para muitos, viver é se distrair. Dancinhas, memes e coisas do tipo, como exemplo dos 15 minutos (ops, segundos!) de fama de que falava Andy Warhol.
Futuro? Qual? Como? O bom é o aqui e o agora! O futuro se encurtou ou desapareceu, para muitos.
Parece que só se age e executa ações por outros determinadas, como se não pensassem ou decidissem. Daí, axioma nos é revelado, na medida em que, embora possa fazer maravilhas, o computador não pensa, pois não possui empatia e sentimentos como o medo ou o sentido de autopreservação. De certa forma, reproduzindo esse padrão, há geração na qual a sua metade não distingue fatos da mera opinião.
Será que não percebem ou não se lhes explica que só ganha o jogo quem entende os fundamentos que produzem os resultados? A vida, o mercado de trabalho, as eleições, os desafios para o país etc não são simples “sim ou não” ou prova de marcar “x”.
Mais do que o certo ou o errado, é fundamental que se possa analisar os argumentos. A motivação é tão importante quanto o ato em si.
Sem capacidade crítica, tendem a agir do mesmo modo, sendo levados facilmente pelo grupo social até a beira do abismo, enquanto se sorri em selfies e se celebra o hoje, como se ali se encerrasse o futuro.
Talvez – apenas, talvez – isso em parte revele o universo das fake news. Não ganham mundos apenas porque há malvados de um ou de outro lado, produzindo textos para induzir alguém a erro. Há terreno fértil para a proliferação das fake News porque as suas sementes são irrigadas e adubadas por quem não distingue o fato da sua versão e a verdade da mentira.
Por fim, antes que algum incauto pense que aqui estão fatos, desde logo registro que, além da pesquisa citada, tudo é mera opinião.