Fomos aprendendo a lidar com tais questões e sua importância, principalmente pelo novo sentimento que isso nos impunha. O “espírito de fronteira”. Que não é comum aos brasileiros, o que dificulta em muito, o entendimento público de fatos e problemas nelas acontecidos e que surgem a todo instante. Levando-se em conta, no mínimo, os milhares quilômetros que separam os interesses nacionais de uns e outros, até se perdoa o descaso.
Alguns garimpeiros que lá tinham serviço, a maioria com balsas acompanhavam o sempre o curso das águas; o rio foi secando, e as pedras foram ficando do lado brasileiro, a rua de água e local de trabalho supostamente agora do que seria o lado francês.
Para a França nada tinha de supostamente; entendia que se o rio passara para lá, azar, era o lado francês. Nós não queríamos nem saber. A fronteira era no meio do rio; não importava onde ele estivesse ou fosse em determinado momento, era direito nosso ir atrás dele!
A convivência se deteriorava com os franceses avocando para si o direito de interferir no trabalho dos garimpeiros, que “supostamente” estavam em seu território.
Discussões feias, ruins e desagradáveis.
A fronteira é o “talvegue”, o vale mais fundo, ou o meio físico do rio?
Beligerância nova para nossa ignorância…
Em matéria de ouro e garimpo, os franceses jamais foram boa coisa.
Na verdade, até incentivavam brasileiros a entrar na Guiana para descobrir o “vil metal”. Inocentemente, os coitados acabavam levando maquinaria completa, e ainda lhes ensinavam o serviço. Mas, tão logo descoberto o ouro e começado a se obter renda do trabalho, chamavam a Gendarmérie (polícia francesa) e os denunciavam como ilegais. Todos eram postos para fora do “pedaço” de France; o equipamento e a mina descoberta, ficavam para eles. Era muito comum isso acontecer.
Naqueles dias, com o rio também ”supostamente” passando pelo lado francês e com os problemas diários que iam surgindo, as boas relações acabaram e reações diferentes se iniciaram. Os franceses começaram a fazer incursões com helicópteros militares, bem próximos das balsas brasileiras, pairando sobre elas. O turbilhão de vento provocado pelas hélices, jogava lonas, panelas, e o que nelas estivesse solto, rio abaixo. Até mesmo uma e outra mulher acabou nas águas. Tanto fizeram, até que, um dia, os garimpeiros resolveram dar uns tirinhos para o alto e furaram o helicóptero francês por baixo e na “bunda”.
Estava armada a confusão. Porradas, porrada, queriam os brasileiros. Uns até sangue!!! O coronel que comandava a guarnição brasileira do Oiapoque, à época, correu depressa com um contingente por nosso lado, tentando acalmar e pôr pano quente.
O Comando Militar da Amazônia entrou em polvorosa.
E mandaram eu correr (já estava acostumado com esse “corre”…) “Resolva, resolva que isso não pode chegar à esfera diplomática ou aos palácios; de lá, virá o mais fácil, retirar o pessoal”. Sempre era e será assim para a longínqua capital. Sem mais responsabilidades, retiram sempre nosso pessoal.
A idéia de solução me veio rápida e até inteligente. Que não se comunique a alta esfera de nenhum dos lados. Nossos militares locais, extrapolando suas funções e poderes, apenas chamariam os militares franceses, para um dialogo, arrefecendo seus ânimos, e pronto.
Papo executado chegou se a conclusão, de que deveríamos resolver o problema entre nós e ali. Todos entendendo que se fosse para mexer com diplomacia, levando até as “Ilhas de Fantasia”, Brasília ou Paris, jamais atenderíamos as vontades do lugar. Nunca! E um pequeno episódio, iria se transformar em grave questão de fronteiras! Ficariam rancores ou seqüelas futuras.
Quanto a mim, aprendera que fronteira fica sempre onde está o interesse, e só perde aquele a quem seu próprio país não tem respeito…deixando a descoberto sua cidadania.