Naquele momento, para a minha surpresa, eu percebi que minha amiga não estava me testando, mas sim querendo compartilhar sua mais nova descoberta literária, pois como falei, não era uma autora muito conhecida pelos livros de literatura. Helena, como se chamava minha amiga, começou e me fazer algumas indagações sobre a poetisa, e assim, a conversa foi se alongando e ficando cada vez prazerosa e edificante, pois falar de Gilka é falar de uma grande mulher, Gilka da Costa de Melo Machado nascida na cidade do Rio de Janeiro, em 12 de março de 1893. Faleceu na mesma cidade em que nasceu, aos 87 anos, no dia 11 de dezembro de 1980. Ela foi uma romancista e poeta brasileira do século XX, com uma obra muito ampla.
Uma característica que a diferenciava das outras mulheres poetisas da época, eram suas poesias de temática erótica feminina, sendo assim, considerada uma escritora de vanguarda. Além do mais, suas poesias, como seus romances eram marcadas por expressiva sensibilidade e por grande ousadia para a época, sendo considerada imoral por muitas pessoas conservadoras. Porém, ganhou a simpatia de muitas mulheres, numa época em que temas relacionados à sexualidade feminina eram tabus. Temas como amores proibidos, pecados, relacionamentos afetivos e traições estão presentes em grande parte de sua obra.
Segundo Carlos Drummond, “ela combinava elementos simbolistas em sua formação, como também, tinha algo de misticismo, e às vezes acusava preocupações de ordem social, chegando a uma espécie de anarquismo romântico”, que merece sair das sombras da literatura brasileira”. Afinal, viveu uma época na qual as mulheres eram confinadas à uma vida doméstica e recatada e rompeu com as barreiras do decoro público, chocou a sociedade ao escrever e publicar sobre as paixões e desejos proibidos à mulher. Não seria de mais compará-la a Mary Shelley, nem tão pouco a Frida Kahlo, mulheres que sempre estiveram a frente de seus tempos, desafiando uma sociedade extremamente machista com seus talentos indiscutíveis.
Não podemos esquecer que já pelo fim do século XIX, a maioria das mulheres que seguiram para o caminho literário, pertenciam às famílias da elite. Assim, essas mulheres, frequentadoras de reuniões literárias, começaram a escrever seus poemas, contos, crônicas e romances em seus diários guardados em gavetas, já demonstrando uma conscientização e crítica à ordem social em que essas mulheres estavam inseridas. Se a publicação de um livro era algo distante para as mulheres da República, escrever sobre os seus desejos femininos era algo ainda mais complicado, pois estas pertenciam a uma sociedade patriarcal, sendo a mulher a responsável pela “moral e os bons costumes” da família.
Gilka Machado foi umas das pioneiras no Brasil a escrever poesias de cunho erótico e sobre manifestação do desejo feminino, mas devemos levar em consideração que no Brasil do século XX, os livros escritos por mulheres não deveriam ultrapassar o cerco do lirismo cheiroso e bem-comportado. Isso faz de Gilka uma escritora extremamente corajosa, desafiadora e muito afrente de seu tempo, pois ela produzia versos considerados escandalosos para este mesmo período. Ela prefere a valorização ostensiva do corpo feminino, concebido como terreno radicalmente sensível ao mundo externo, nos trazendo à luz o conhecimento de que para ela a revolução ocorre, portanto, dentro da mulher.
“Quando publiquei meu primeiro livro, cujos versos haviam sido escritos dos treze aos dezessete anos, o rumor de escândalo que então me chegou aos ouvidos atônitos de surpresa a pouco e pouco foi ecoando na minha alma, nela despertando uma dúvida terrível, respectivamente à minha própria personalidade… Houve dentre os meus juízes opiniões inteiramente contraditórias: dos que, desconhecendo por completo minha pessoa, acusavam-se de andar pelo club dos Diários, ostentando a minha nudez, e a daqueles que, informados de minha pobreza, atribuíram a suposta brutalidade das expressões da minha arte à minha vida plebeia.” (Gilka Machado)
Ser Mulher
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Gilka Machado
Beijas-me tanto, de uma tal maneira
Beijas-me tanto, de uma tal maneira,
boca do meu Amor, linda assassina,
que não sei definir, por mais que o queira,
teu beijo que entontece e que alucina!
Busco senti-lo, de alma e corpo, inteira,
e todo o senso aos lábios meus se inclina:
morre-me a boca, presa da tonteira
do teu carinho feito de morfina.
Beijas-me e de mim mesma vou fugindo,
e de ti mesmo sofro a imensa falta;
no vasto vôo de um delíquio infindo…
Beijas-me e todo o corpo meu gorjeia,
e toda me suponho uma árvore alta,
cantando aos céus, de passarinhos cheia…
Gilka Machado