O continente africano e a China têm forte parceria e a literatura estrangeira nos relata a dimensão da transformação daquele imenso continente.
São livros não disponíveis no Brasil.
Em livre tradução, são títulos como “Segundo continente da China: como um milhão de migrantes estão construindo um novo império na África”, “O presente do dragão: a estória real da China na África” e “A África alimentará a China”. Além desses, há outros sobre aquelas vastas áreas continentais, tais como “Grilagem de terras na África: a corrida pelas ricas terras agrícolas da África” e “Grilagem de terras e a guerra na África”.
A dominação agora tem outro formato. No lugar das conquistas, com guerras e opressão de todas as formas, o fluxo de financiamentos e as aquisições de terras fazem do grande continente africano o produtor da riqueza e da comida que segue para outros países. A história global de dominação não se repete com as exatas mesmas notas de outrora, mas a sinfonia continua sendo tocada, com outros arranjos e movimentos e o mesmo resultado – para um dos lados.
Nestas fartas e ricas terras brasileiras, os produtores hoje instalados desbravaram sertões e transformaram o país em celeiro produtor de riquezas e de alimentos.
Entretanto, no lugar de ser recompensados, tendem a ganhar concorrência aqui dentro, por entidades ligadas a governos estrangeiros, notadamente se houver o afrouxamento da legislação sobre a aquisição de terras por estrangeiros e se estes, de fato, vierem a ingressar com financiamentos fortes para transformação de 40 milhões de hectares em áreas exploráveis (UOL, 27.3.2023).
Apenas para contextualizar, sobre os 40 milhões de hectares, basta dizer que essa área corresponde ao total da produção de soja, no Brasil, em 2021/2022 (maissoja.com.br, 05.11.2021)!
Sobre a venda de terras a estrangeiros, a lei vigente limita (como quer a Constituição Federal, no seu art. 190) cada unidade a 2.500 hectares, como contundente resposta ao grave cenário revelado pela CPI da venda de terras a estrangeiros (1967). Na contramão, o projeto em tramitação no Congresso Nacional não tem limite para o tamanho de cada área, além de admitir a aquisição de posses (não registráveis nos cartórios de registro e, portanto, mais difíceis de se controlar).
São situações sem muita distinção do que a literatura internacional indica acontecer no continente africano… o resultado final não seria a produção em prol da nossa Nação, do nosso povo e da nossa economia.
Em princípio, pode parecer haver vantagens, mas a lupa indica que a questão é menos de economia das mercadorias e mais de estratégia política e de Soberania Nacional e, também, de posicionamento da nossa estrutura rural diante da chegada dessas potências, capitaneadas pelos investimentos maciços e a necessidade estratégica de alimentar a maior população do mundo.
Nada há de errado ou questionável na necessidade expansionista ou do interesse nacional daquele ou de qualquer país. Não há nuance de qualquer preconceito ou resistência a qualquer povo ou nação.
A grande questão é: por qual motivo não somos, também, protecionistas, expansionistas ou nacionalistas? Se outros podem ser nacionalistas e tudo fazer para proteger os seus, hoje e no futuro, por qual motivo não podemos valorizar e proteger os nossos nacionais?
Os grandes parceiros comerciais e compradores só terão tal posição enquanto tiverem a necessidade de aquisição.
A partir do momento em que tenham as mesmas condições de produção, deixarão de ser grandes compradores e passarão a ser fortes concorrentes.
Ora, somos o maior fornecedor de alimentos para a China graças ao esforço dos produtores brasileiros. Se vierem a participar da exploração e aquisição da terra, haverá concorrência interna… No fim, efetivamente, a riqueza não será nossa e nem dos nossos produtores, pois será levada daqui, por transferência dos altos valores envolvidos e in natura. Os produtores e a cadeia produtiva aqui instalados tenderão a perceber a concorrência e a diferença no quilate dos negócios mundo afora…
Em recente artigo, intitulado “Monopsônio chinês afeta o mundo”, dissemos: “Quando um único e grande comprador adquire produtos de vários vendedores, por longo tempo, não domina só os preços, já que cria complexa cadeia de dependência. Esta acaba produzindo também ingerências políticas que retroalimentam o seu poder de compra. A cadeia de fornecedores se torna tão dependente que começa a disputar entre si, como num leilão às avessas. […] Em tão grande amplitude, a questão não é mais de natureza puramente mercantil. Há forte elemento político e de Soberania no contexto, já que controla o fluxo econômico do mercado presente e futuro.”
A expansão, na forma de financiamento, em troca de abastecimento (leia-se, fornecimento de alimentos) equivaleria a uma condição de guerra quase ideal, pois dispensa armas e mobilização de exércitos.
A Índia e a China precisam de segurança alimentar, para as suas populações, de cerca de 1 bilhão e meio de pessoas, cada. Necessitam crescer e adquirir o controle das terras cultiváveis. Buscam novos produtos por consumir e, mais do que isso, controlar o fluxo das cadeias produtivas e dos alimentos.
Em sentido figurado, se possuirmos a padaria, venderemos os pães. Se a padaria for vendida, teremos de pagar pelos pães e pelo preço que o novo proprietário quiser nos vender ou… ficar sem.
Esse é o quadro que se desenha – a exemplo do que se identifica no continente africano. Ainda estamos em tempo de resistir, como Nação, em prol dos brasileiros – dos produtores instalados, dos proprietários rurais, dos envolvidos nas cadeias produtivas, do nosso povo que sua e trabalha muito para ter o que comer a cada dia, dessa imensa massa que está pagando alto pelo alimento e daqueles que não tem o que comer.