Começara a correr os anos 90. Já bastante agitados, por mudanças impostas por um intempestivo moçoilo que acabara por chegar a Presidência. A Amazônia insatisfeita, estava em alerta, com a notícia da visita do príncipe Charles, herdeiro da Coroa Britânica, que a ela vinha com pretensão a navegar o Amazonas. Sua presença exacerbava preocupações sobre soberania e exploração econômica. Ainda mais que até aquela ocasião, nos verdadeiros corações dos homens do norte o bem histórico dia da Adesão ainda vivia em memórias.
Sempre nos impressionara a “simpática e legal” pirataria inglesa… filmes com espetaculares imagens e bravuras a justificavam; e ser pirata é coisa boa até os dias de hoje. E eles estão em todo e qualquer lugar onde a produção de matéria–prima se apresente. Um hábito secular, sem dúvida… E deles, como piratas legais, nunca se veem incursões expostas na mídia, estando sempre mascaradas como Reais. Ninguém nunca discutindo a amplitude de seus interesses monopolizadores, acobertados hoje por ilusórias campanhas do meio ambiente. Mas, esnobes realezas sempre encantaram homens fracos, principalmente políticos, por isso bem dominam e bem aparecem!
A preocupação era grande demais. Há muito já discutíamos sem nos entendermos, o diabo da questão de soberania até interna, que o brasileiro costumeiramente identifica como coisa de soldado.
A procura de melhores informações, procuramos o dispositivo militar presente à Amazonia, sendo recebidos pelo general de brigada, acho que único no Exército Brasileiro nascido e criado na Amazônia, Taumaturgo Sotero Vaz, então chefe do Estado Maior do Comandante- General de Exército Santa Cruz, do CMA. Os dois bons ativos participantes de períodos amazônicos agitados. Naquele Comando Militar, o general Taumaturgo confirmou, o herdeiro do trono inglês estava vindo e com esposa.
Após contactar influentes das áreas extrativistas e cidades do interior, buscando uma análise sensata, registrei que todos consideravam a visita inoportuna e prejudicial. E a reação foi unânime: a visita seria um complicador. Transmiti ao Comando Militar a onda de mal querência percebida, e que o nobre visitante não era benvindo. O Governo deveria desencorajar a pretensão da nobreza inglesa em subir com seu iate, singrando águas do nosso rio Amazonas e mais que isso, até mesmo sua vinda à Amazonia.
Tudo poderia gerar e trazer significativos dissabores diplomáticos, originados por descontentes reações locais. Debatíamos ainda contra as extremadas opiniões externas sobre a Amazônia e a vida das pessoas que a ocupam. Um verdadeiro diálogo de surdos nenhuma possível conclusão ou conciliação de propósitos. A vinda da aristocrática autoridade só faria piorar; sabíamos.
Com os brios machucados, como muitos e minha lógica nacionalista em confusão, fui direto ao escritório, ainda em Manaus, para começar a fazer contatos por telefone. Buscava pessoas de peso, com as quais mantinha relações, gente que saberia muito bem, em conjunto, fazer uma análise sensata e ponderada do que me incomodava. E não busquei críticos ferozes contra as intervenções forasteiras na Amazônia, nem aqueles imbuídos de conceitos nacionalistas mais arraigados e arcaicos. Procurei gente que absorvesse a informação e produzisse resposta equilibrada.
Pessoas a centenas e até milhares de quilômetros de distância umas das outras, reagiram da mesma forma. Consideravam um absurdo aquela visita ocorrer exatamente no período em que tentávamos resolver a exploração econômica em geral, naquele momento, em louca celeuma. Seria demais ainda termos que aguentar as sempre sanguessugas opiniões estrangeiras.
Aquela visita significaria, efetivamente, um agente complicador e mais desentendimento. A Amazônia, com sua floresta, estava no auge mundo afora. Na ocasião havia uma flatulência ambiental no exterior, e a conta da limpeza era sempre paga por nós.
Decidimos agir. Se o nobre estava vindo trazer “merda” às nossas famílias, a ele também levaríamos boa “merda” brasileira. Organizamos um bom plano: limparíamos fossas e encheríamos sacos plásticos, para com nossos aviões, bons pilotos que éramos, os lançar sobre o iate britânico. Com eles bombardearíamos o Iate Britânia. Assim a Amazônia também poderia sentir o cheiro do príncipe “esmerdeado”. Simples assim…
Enfim, tomaram conhecimento da nossa movimentação e que já bem trinados, os preparativos estavam avançados. A pontaria já estava boa. Acertávamos os alvos com muita facilidade. Atingíamos até canoa.
A notícia se espalhou e as autoridades reagiram.
Com o fracasso das tentativas de negociação política para conosco, o governo brasileiro decidiu pôr fim que o príncipe não subiria o Rio Amazonas, limitando-se ser transportado do mar a Belém, por helicóptero ao aeroporto, de volta para casa. O que nos levou sorrateiramente a aliciar os sempre dispostos as bagunçar, os jovens. Iniciamos uma campanha urbana de agitação. Estudantes foram mobilizados, contaminando Belém com descontentamento. Na passagem, mesmo em pequeno percurso, da Capitania dos Portos ao aeroporto, o filhote da velha rainha velha, então príncipe, foi bem apupado tomando vaias por todo o trajeto. Uma demonstração clara do desagrado local.
Apesar do gostoso afago aos nossos Brasil-Amazônicos espíritos, a represália veio: o general de brigada Taumaturgo, talvez punido por nos acoitar, não foi promovido, sequer a divisão. O general de exército Santa Cruz, que já era quatro estrelas, se retirou, sem sanções.
E eu, aquietei-me, indo para casa dormir.
BH| Macapá, 23/06/2024
José Altino Machado
NOTA DO AUTOR:
• Hoje, vivemos a sensação de que há uma vendeta contra os naturais ocupantes da Amazônia.