Entretanto, a História nos ajuda a entender muito sobre a nossa condição humana, cheia de fraquezas.
Muitos precisam de um inimigo para viver! Adversários políticos perderam status quando Vargas se suicidou, brilho quando Jango foi derrubado e alguns, que defenderam a mudança do regime em 1964, receberam como prêmio a cassação, por Castelo Branco.
Os países também agem assim, elegendo inimigos para sustentar uma política. Muitos precisam se projetar como salvadores diante de inimigos reais ou imaginários, cujo poder idealizam e hipervalorizam, para se sair como heróis, redentores e poderosos. A velha luta do bem contra o mal ainda tem o seu charme e cativa seguidores…
Os países e empresas dominantes adotam a mesma postura diante de um novo concorrente. Enquanto os que crescem lutam por um lugar ao sol, os que estão no topo chegam a perder o foco do próprio crescimento, ao passar a vigiar as ações alheias.
Os países dominantes querem e precisam se manter no topo e dar constantes provas da força. Estabilizar o seu crescimento significa paralisia, o que pode ser interpretado como fraqueza e rumo ladeira abaixo. Então, fica combinado: países dominantes precisam dominar e, para isso, sempre crescer, econômica e militarmente.
As grandes potências têm um mesmo padrão comportamental, que pode ser categorizado como a “síndrome do poderoso”, que vê inimigos em todos os lugares, que se cega por só querer ver o que deseja e que repudia qualquer ameaça ao status quo, sendo capazes de desestabilizar a paz dos seus próprios nacionais para ganhar força para uma reação. Tudo isso se expressa como reflexos do “medo da perda” de posições no ranking global, algo mais subjetivo e impulsivo do que os detalhados planejamentos e estudos feitos para proporcionar novos ganhos.
Por isso, de certo modo, entre ganhar mais status e não perder o que se tem, a mente nos induz emocionalmente a nos agarrar ao que já conquistamos e a nos lançar em todas as frentes de batalha.
Nessa linha, sabemos que, com o fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo foi rachado em duas forças e a divisão da Alemanha bem simbolizou aquela realidade.
Assim, a OTAN surgiu como um muro protetor dos valores ocidentais naquela Europa dividida. De um lado, as reservas do Ocidente, do Capitalismo e dos valores democráticos e monárquico-constitucionais. Do outro lado, os ecos da revolução cultural, ligada ao socialismo e ao regime comunista, que a União Soviética de Stalin simbolizava.
Por anos o mundo foi dividido entre os que forçavam as muralhas ideológicas e os regimes ligados a cada um dos lados. Tensões em Cuba, no Oriente Médio e na Europa dividida, a partir de uma Alemanha fracionada por um muro que separava famílias e laços. Esse paredão, antes de ruir, foi vencido por alguns corajosos que o escalaram para fugir da repressão do regime socialista, tendo também servido de local de execução para civis, vitimados por metralhadoras, manejadas sem piedade.
Esses aríetes ainda existem, seja por missões comerciais ou militares, por embargos econômicos ou problemas cambiais e de fluxo de crédito ou, ainda, por estrategistas e estadistas que olham além do que os comuns dos homens enxergam e enviam os seus emissários para sabotar ou criar sombras de novos fantasmas e medos… e povos com medo são perigosos.
A Rússia de Putin buscou, na Ucrânia dividida, algo que o Ocidente parecia desafiar. A Rússia não queria a Ucrânia ligada à OTAN porque não admitia que essa força de contenção do socialismo chegasse às suas fronteiras e é sabido que Gorbatchev, ao negociar o fim da União Soviética, recebeu do Ocidente a promessa de que a OTAN não avançaria para aqueles lados.
Portanto, a tensão estava contida por anos, até que parte da Ucrânia pretendeu ostensivamente ligar-se à Europa e à OTAN, no marcante evento da Revolução Ucraniana de 2014, conhecida como Euromaidan (não confundir com a banda Iron Maiden), que levou ao afastamento do Presidente Yanukovych e à invasão da Criméia pela Rússia.
Para o Ocidente, era a Rússia o grande inimigo, já que sucedeu à União Soviética. As lunetas e satélites dos EUA e Europa focavam na Rússia. Os filmes também tratavam dessa temática…
Assim, enquanto Rússia e EUA ficavam na sua guerrinha fria, a China seguia o seu caminho.
A História registra que Nixon aproximou-se da China com o objetivo de enfraquecer a União Soviética e que, anos depois, reconheceu que talvez tivesse “criado um Frankenstein”! Bem que Napoleão alertou para a deixar dormindo, mas os EUA a acordaram naquele momento…
Só que o tal Frankenstein não foi exatamente criado. Existe há mais de 5 mil anos, tem História, cultura e princípios sólidos e, com o aparente enfraquecimento da Rússia, é crível que a Guerra na Ucrânia talvez tenha se tornado um “negócio da China”, pois a coloca naquele outro lado do ringue, por décadas ocupado pela União Soviética e, depois, pela Rússia.
Silenciosamente, em 30 anos, a imensa nação explodiu em crescimento. Tudo com proporções gigantescas, numa população que hoje beira 1 bilhão e meio de pessoas. A China saiu da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung para emergir nos idos da década de 1980 como política Comunista, com regime capitalista. Progrediu rapidamente por vários motivos, inclusive por sua barata mão de obra e a inexistência do direito de propriedade privada que, como consequência, não exigia morosos processos de desapropriação e indenização aos antigos moradores dos locais onde seriam construídos estradas, prédios e indústrias.
Talvez a Rússia tenha emocionalmente se jogado na Guerra da Ucrânia e calculado mal o cronograma da invasão, a ponto de parecer que a idealizada imagem do seu exército poderoso e forte esteja se derretendo como boneco de neve e a forte pressão econômica interna esteja a balançar as estruturas do apoio a Putin.
Contudo, acreditamos que talvez não seja bem assim, pois, de fato, mais lemos a imprensa ocidental e as suas versões dos fatos do que os jornais do oriente, seja por facilidade de acesso, censura a informações, falta de tradição ou mesmo dificuldades com as línguas locais. Então podemos concluir que a nossa visão é parcialmente ofuscada pelas notícias que mais falam de um lado do que do outro…
Aliás, há grande vigor nas condenações à Rússia pela imprensa ocidental, bem diferente de como se dirigia aos EUA pelo que ocorria em Guantánamo, onde cerca de 700 pessoas ficaram presas, sem acusação formal e sem julgamento e, segundo a Cruz Vermelha Internacional, sendo vítimas de torturas, de desrespeito aos direitos humanos e às regras da Convenção de Genebra.
Lemos que alguns protestaram contra a Rússia não comendo estrogonofe, mas não me lembro de protestos afins contra os hambúrgueres e produtos americanos quando estes iniciaram outras guerras ou com outros países que iniciaram outros conflitos armados.
De toda forma, com esse jogo entre EUA, Europa e OTAN versus Rússia e o detalhe de que esta passaria a imagem de não ter tido uma vitória rápida e arrasadora na Ucrânia, a lição de Sun Tzu ecoa por todo o globo, com a China seguindo a sua peculiar estratégia de crescimento, de desprezo aos pruridos externos e com a ideia de que há mais inteligentes meios de se vencer o inimigo do que pela guerra armada.
Aliás, hoje, 5ª feira, enquanto escrevemos este texto, noticia-se que, também cuidando da sua área de influência e como medida de contenção, a China alertou que adotará medidas fortes se a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA for visitar Taiwan, a ponto de pedir que a visita seja cancelada.
A China não é e talvez nunca seja uma democracia. Talvez nunca seja o que os nossos olhos e ouvidos imaginam que seria. A China já é o que é, desde sempre – enxerguemos ou não.