Ideias e pensamentos e criações. Os seres humanos moldaram o mundo a seu gosto – ou mau gosto!
A Cidade Feliz é o título do livro publicado em 1553, em Veneza, por Francesco Patrizi da Cherso. Retrata cenário quase utópico, simbolizado por uma cidade ideal, capaz de entregar aos seres humanos o seu maior desejo: a felicidade.
Um livro de quase 500 anos ainda é atual e parece ter sido lido por muitos dos que, desde então, governaram o mundo.
Veneza era uma potência mercantil. Os Médici dominavam, o dinheiro circulava e a Renascença transformava a visão de mundo, com o humanismo como valor fundamental.
As fontes da antiguidade grega e romana iluminaram o período e daquelas ruínas e monumentos saíram luzes de ideias, que elevaram o modo de vida e do pensamento.
A razão individual, o empirismo, a filosofia e a revalorização da consulta aos pensadores de outrora se espraiou, daquelas terras italianas, para a Europa.
Numa época em que o Brasil havia acabado de ser descoberto e que terras e culturas distantes não eram conhecidas pelos europeus, ainda assim se questionava o modo de vida de então e os limites à razão, ao pensar crítico, ao lugar do homem no mundo, às coisas do corpo e da alma e modos de se questionar os freios para se alcançar a almejada felicidade.
A cidade feliz não era ou é uma utopia renascentista.
Ainda hoje sofremos e nos enchemos de medicamentos com tarja preta e terapias e fugas do cotidiano, por nos debater com o que cada um elege como adversário da própria felicidade.
Feliz seria quem vive em perfeita virtude, em paz, sem obstáculos ao seu agir e pensar, usufruindo do gozo de uma vida plena e completamente satisfatória.
Mas que maravilha!
Uma categorização da felicidade!
Se esta pode ser assim considerada, não legaram a nós os meios, os mecanismos, os caminhos, os passos para se a alcançar, muito menos para se a conservar.
Um axioma, um paradoxo, um conflito de conceitos pode já surgir, quando pensamos que a felicidade possa ser algo palpável e durável, no lugar de ser algo que se possa experimentar e viver, como um momento maravilhoso.
Aqui, poderíamos ter um álbum de fotografia, com vários episódios felizes e ter toda a plena vida feliz por valorizar esses bons e felizes momentos… Um abraço entre pais e filhos, um filho sendo amamentado, crianças correndo pelo campo, um mergulho na água do mar ou do rio, um banho de chuva, uma ligação inesperada de alguém querido…
Mas não nos satisfazemos tão facilmente. Queremos não apenas um álbum com essas simbólicas experiencias felizes. Desejamos reproduzir permanentemente, em nossos aparelhos mentais e emocionais, uma ideia de “plena vida feliz”, como se não assistíssemos a todos os jogos de futebol na Copa do Mundo, mas apenas ao vídeo tape dos melhores momentos.
A vida não é assim. E o que tem ocorrido nos últimos tempos é um processo acelerado e intensificado, muito concentrado, desses dilemas e profundas questões que movimentam a mente humana, desde tempos imemoriais.
Contudo, se imaginamos que se podia viver em paz e felicidade em bucólicas aldeias isoladas é porque ignoramos – talvez intencionalmente – a vulnerabilidade dessa aparente perfeição, diante dos povos invasores que, quando vencedores nas batalhas, saqueavam as vilas e cidades, estupravam as mulheres e escravizavam os jovens.
A vida nas cidades também não propiciavam essa paz, pois ali, mais do que nos pequenos povoados, a vilania, a vaidade e a degradação dos valores corrompiam até os tidos como mais puros. Pecado era não pecar.
Não estamos longe dessa ideia, quando agimos como os mansos que estão obedientemente a fazer o que lhes mandam, em nome do dinheiro, acima e bem acima, dos governos, das ideologias, das ideias, da liberdade de crítica e de opinião. Somos massacrados por um universo de valores conceituais que, na prática e em vão, são gritados aos quatro ventos. Os mais lúcidos talvez percebam o jogo, mas são calados pelo sistema… e ficam como aqueles que discursavam em vão sobre caixotes de madeira, nas praças das cidades.
Os passantes sempre passam sem parar e dar ouvidos a quem lhes alerta. Para isso, teriam de parar e pensar e deixar que as ideias fossem assimiladas ou rejeitadas, tanto faz – mas teriam de pensar.
Mais fácil passarem os passantes, a passos rápidos, até fingindo que não ouvem os alertas, as vozes dissonantes, lúcidas e apoiadas na lógica dos pensamentos mais maduros.
Curioso notar que naquele livro de 1553, intitulado A Cidade Feliz, há passagem onde se diz que tal cidade, idealizada como perfeita para a felicidade, seria aquela onde o conceito de “ideal” pudesse conviver com a “realidade”.
Hoje, quase 500 anos depois, pela ideia de Metaverso que surge, talvez percebamos essa realidade prestes a conviver com um ideal ficcional e nos trazendo, futuramente, uma dimensão de progresso e de desenvolvimento da razão ou um afundamento sem parâmetros de comparação na História da humanidade, com o aniquilamento total e a inanição do pensamento, da empatia e do senso de humanidade, se o Metaverso se constituir numa modalidade mais dominante da ideia romana do “pão e circo” para distração das massas.
A inanição mata e matou tantos, por fome absoluta, como o Holodomor, ocorrido na Ucrânia, há cerca de 90 anos… Genocídio de milhões por fome. Nada de ideias. Era só a realidade, dura, nua e crua. É algo tão cruel que nem como pena de morte é mais utilizado.
A inanição política e de ideias é também de gravidade tamanha. Mentes distraídas e controladas por um mundo ideal ficcional são mais vulneráveis e perigosas do que qualquer jovem que fosse recrutado para servir na infantaria, para morrer com honra, em nome pátria.
Qual o padrão “global” que se levará em conta nessa proposta de homogeneização? Por ora, a herança cultural europeia, numa versão mais fútil via “American Way of Life”, encara ideias de comunhão de interesses, bens e serviços. Entre os opostos, há tantas variações em regimes políticos autocratas, democratas, ditaduras, chefes em tribos e aldeias pelo mundo afora, com tendas montadas sobre poços de petróleo, diante de uma multidão de bilhões de pessoas, em parte reduzidas a peças descartáveis no tabuleiro global, úteis apenas como mão de obra, compradores, soldados e produtores de alimentos.
A Cidade Ideal não existe. O ser humano não a quer. A inanição política domina o mundo há algumas décadas e entorpece ideias e ideologias, pensadores e críticos, vozes e discursos. Parece que se pretende homogeneizar a humanidade, como se as diferenças linguísticas, culturais, alimentares, de moradia, religião e modo de vida não importassem. Mais ou menos segundo a ideia de que “ou estão comigo ou contra mim”.
Reduzir tudo à dualidade do bem contra o mal é simplista e nós, seres humanos, somos complexos demais.