Nos circos, o palhaço perguntava e o público respondia: “- Tem sim senhor”.
A resposta era dita em coro, como reflexo e sem análise da pergunta formulada. Por vezes o palhaço ironizava e mesmo assim o público sempre dava a mesma resposta.
É curioso perceber como repetimos padrões e reagimos da mesma forma. Por mais que tenhamos aprendido, na escola da vida, sobre as coisas da política, das paixões e dos jogos dos poderosos e governantes, a nossa atitude parece ser a mesma.
Não sei se ainda se faz daquelas perguntas, nos circos.
Todavia, até o corretor ortográfico do meu celular parece que aprende com os próprios erros, pois se aprimora, dada a qualidade das “correções” que tem feito, já que até palavras corretamente digitadas ele “corrige”. Enquanto isso, as sociedades têm ficado como o público circense, alegremente reagindo às expectativas e dizendo, “sim senhor”.
Postura passiva, subordinada, dependente, nada proativa.
De tão previsíveis as reações das massas, somos tocados como gado. Sempre nos corrigem o rumo e, sem perceber, seguimos até o matadouro.
Como dizia Ariano Suassuna, “à volta do buraco tudo é beira” e talvez já estejamos lá há tempos, sem perceber.
Vivemos certa ditadura da felicidade, sem perceber.
É como se tivéssemos a obrigação de “ser felizes” o tempo todo. Isso se acentuou nos anos recentes, nas fotos postadas nas redes sociais, nas quais estamos sempre sorrindo, em férias, praia, festas e abraçados aos amigos e familiares.
Sem perceber, somos escravos dessa positividade que antes só dominava as mensagens de propaganda. Isso nos esgota.
Sentimo-nos “de fora” quando a nossa realidade não combina com aquilo que vemos.
Temos a “obrigação” de ir à certos locais para “dizer que fomos” e ainda temos que provar que lá estivemos, postando as fotos dos momentos, em vez de vivenciá-los. De certo modo, somos vistos como estranhos seres quando não gostamos de Paris, dos parques temáticos da Flórida ou de ficar horas na fila para entrar no bar que “tá bombando”.
Somos levados a deixar de sentir o cheiro da comida que chega quente à mesa, porque temos antes de fotografar o prato! Deixamos de saborear a espuma do Chopp gelado, enquanto preparamos a câmara do celular. Em vez de apreciar a visão da montanha ou da praia, damos-lhes as costas, para fazer selfie. Não olhamos as pessoas nos olhos, porque preferimos nos reunir lado a lado para fazer aquela foto do encontro…
Somos submetidos a um padrão de exercício da plena liberdade que, em verdade, é o cadeado da prisão. Nem temos consciência do quanto temos sido privados de sentir o prazer verdadeiro das cores, cheiros e sabores.
Consideramo-nos livres, quando, em verdade, estamos condicionados a certa obediência. Curioso, fico a notar como muitas fotos da Torre Eiffel são feitas exatamente no mesmo lugar e ângulo, de tantas outras postadas, talvez significando que, além de não aproveitar o momento, sequer temos a liberdade de procurar um ângulo diferente para fotografar. Instintivamente somos levados a repetir aquela foto “clássica”.
Não somos reprimidos, segundo a ideia vulgar de repressão pela força e atos de império, dos governos e poderosos. Somos desligados da realidade, distraídos pela ilusão de um mundo onde só há prazer e no qual tudo o que se liga ao mundo real é chato e visto como doloroso, cansativo ou pesado.
No entanto, estamos nos esgotando com isso.
Também estamos desgastando traços das relações humanas, que foram forjadas por milhares de anos, ao longo da História e em torno dos abraços e toques. Mesmo durante conversas triviais, nossa linguagem corporal produz múltiplas combinações, que são interpretadas por nossos cérebros. Os rostos produzem movimentos, por vezes imperceptíveis, que nossa mente capta, para complementar o processo de comunicação. Figuras como avatares e produtos como o paralelo mundo do metaverso não produzem esses sinais e tenderão a diminuir a nossa capacidade de estabelecer profundas relações entre as pessoas.
Se os governos e as empresas nos exigisse dizer onde estamos e o que fazemos, reagiríamos com um sonoro “não” a essa dominação repressora.
Levantaríamos bandeiras como a da liberdade de expressão, da invasão de privacidade, do direito ao anonimato e até invocaríamos algo como a Quinta Emenda da Constituição dos EUA e o nosso sagrado direito de ficar em silêncio.
Todavia, criou-se um sistema onde fazemos isso voluntariamente e com sorrisos nas imagens postadas! Algo como “sorria, você está sendo monitorado”.
Somos submetidos à vigilância e levados a uma autoexibição permanente. Dúvidas? Também as tenho. Contudo, após comprar algo pela internet, seremos logo alvo da investida de ofertas relacionadas ao que compramos.
Sabem onde estamos, o que compramos, se a compra foi feita à vista ou parceladamente e por qual banco ou cartão de crédito. Conhecem até onde estaremos em ocasiões futuras, quando já fechados pacotes de viagem. Nossa localização é sabida, quando os nossos celulares estão ligados. O que fazemos pelos computadores ou celulares está inserido em sistema, no qual tudo é conhecido ou periciável.
Apesar disso, sentimo-nos livres.
Alegremente, vivenciamos o papel dos presos, no Panóptico idealizado por Jeremy Bentham, no ano de 1785. Para ele, a penitenciária perfeita teria apenas um vigilante, que observaria os prisioneiros, sem que estes soubessem.
Direitos e liberdade são conceitos inegociáveis em nosso mundo. Queremos ter direitos e ser livres para agir. As evidências das conquistas agradam a todos, mas não notamos que sempre existiram os direitos proclamados a partir da Carta Magna Inglesa de 1215, da Declaração de Independência dos EUA de 1776 e da Revolução Francesa iniciada em 1789.
São direitos naturais, que não foram exatamente ali descobertos. Sempre existiram, embora não tivessem sido declarados ou estivessem acobertados pela sombra dos déspotas. Foram evidenciados ou autoevidenciados, declarados por palavras que exteriorizaram algo natural, até então negado, usurpado e sufocado.
Em outras palavras, o óbvio e evidente existe, mesmo antes de ser demonstrado por alguém. Nesse momento, há uma catarse coletiva e o grupo social de pronto admite a ideia, que se consolida conforme se espraia.
O modo de aceitação coletiva pode ser redentor ou se direcionar para um axioma, uma charada ou armadilha, com a circunstancial dominação do contexto por alguns que, manipulando-o, assumem ou mantêm-se no poder, enquanto a massa, feliz, distraída e sorrindo, tem terminado como começou e quando lhe perguntam se tem marmelada, responde aos Mestres de Cerimônias: -“Tem, sim senhor”.