Muito provável que nossos vikings tucujus desconhecessem por inteiro os princípios ideológicos dos povos escandinavos. Os vikings foram piratas sanguinários e navegadores audazes. Eram implacáveis, contudo, seguiam um rígido código de comportamento, citado na obra “Ragnarök – o Crepúsculo dos Deuses” (Faur, Mirella. op. cit. – São Paulo: Cultrix, 2011 – p. 48), conhecido como As Nove Nobres Virtudes Nórdicas: coragem, verdade, honra, lealdade, disciplina, hospitalidade, eficiência, autossuficiência ou independência e perseverança. A essas, alguns autores ainda acrescentam igualdade, amizade, força, generosidade, parceria e sabedoria.
Aqueles princípios forjaram o modo de viver dos escandinavos, como bem se reflete num jogo de futebol em época recente: um time da Noruega teve um pênalti a seu favor marcado incorretamente pelo juiz. O atacante norueguês observou ao juiz que não tinha havido a falta, por isso o pênalti devia ser desmarcado, porém o árbitro manteve a decisão e mandou cobrar a penalidade. O gol valeria o troféu para o time norueguês, mas o jogador encarregado de bater o pênalti, com a aprovação de toda a sua equipe, propositadamente chutou para fora, fazendo seu time perder o jogo. Fair play ou obediência à norma da Nobre Virtude Nórdica da lealdade?
Para sermos fiéis ao título, voltemos a falar de ideologia. Para a Filosofia, trata-se de ciência proposta pelo filósofo francês Destutt de Tracy entre o fim do século dezoito e princípio do dezenove, que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo. Para Karl Marx, representa a totalidade das formas de consciência social, abrangendo a ideologia burguesa – a da classe dominante – e de outra banda os interesses revolucionários da classe dominada, o proletariado.
Muito antes das concepções filosóficas sobre o idealismo, agitadas pelos ideais revolucionários que eclodiram em vários lugares no mundo, é possível captar episódios ou ciclos na história em que orientações ideológicas levaram à formação de potências, das quais se podem citar os movimentos sociais, filosóficos e científicos da Grécia antiga, do Egito, dos Impérios Persa, Babilônio, Romano e os do Extremo Oriente, China, Japão, Índia, Mongólia, Rússia, Turquia e outros. Desnecessário falar do que a humanidade herdou desses povos e de suas ideias.
Passando aos tempos de agora – sombrios tempos – o mundo assiste estarrecido o conflito entre israelenses e palestinos, enquanto o Brasil, fustigado pela pandemia e com quase meio milhão de mortos pela doença, acompanha os trabalhos da CPI no Senado da República, instaurada para averiguar a condução pelas autoridades brasileiras nas práticas para enfrentar a Covid 19.
No Oriente Médio, às 20:00 BSB da quinta feira, 20 de maio, árabes e judeus fazem uma trégua nas hostilidades, mas, de um lado e de outro, vozes continuam a vociferar, puxando cada um brasa para a própria sardinha. Israel, sob invocação do holocausto provocado pela sanha nazista que levou o povo judeu a buscar um retorno à Terra Prometida, escapando não só da perseguição dos seguidores de Hitler, como, também, para poder criar um território que pudessem chamar de seu, e assim deixar para trás os pogroms (perseguições e desumanidades) praticados pelo antissemitismo vivenciado em muitos países no mundo todo.
De outra banda, os palestinos que moram em áreas contestadas, ao fim do para eles sagrado mês do Ramadã, e ao protestarem na mesquita de Al-Aqsa contra a decisão da corte israelense que deu guarida à pretensão judaica de despejar os moradores árabes para tomar posse de parte da Jerusalém oriental, sofrendo forte repressão da polícia israelense, reagiram, e as baixas ocorreram, acirrando ânimos e dando ensejo aos fundamentalistas muçulmanos do Hamas para que lançassem chuva de foguetes sobre localidades israelenses. Estes últimos, além do escudo defensivo para interceptação dos artefatos árabes, retaliaram com força total, destruindo prédios e ceifando vidas de palestinos.
Nesse imbróglio interminável, em que os litigantes têm motivos que os conduzem a legitimar suas respectivas práticas, há também razões ideológicas de parte à parte. Enquanto Israel é acusado de violações sucessivas às convenções da ONU, expandindo paulatinamente o território para muito além dos limites de 1947, com Benjamin Netanyahu sendo forçado a ceder aos excessos dos extremistas de direita para assegurar governabilidade, de outro lado o Hamas, grupo muçulmano fundamentalista que domina a Faixa de Gaza, praticante de abominável terrorismo e pregando um retorno ao tempo do mais abjeto obscurantismo islâmico. Bem diferente da política mais moderada do Al Fatah, corrente da Autoridade Nacional Palestina de que fez parte Yasser Arafat e hoje liderada por Mahmoud Abbas, o grupo fundamentalista Hamas valeu-se dos bombardeios efetuados pelo direitismo agressivo e expansionista hoje preponderante em Israel, para incitar o povo palestino a aderir à intenção de dar prosseguimento à jihad até o extermínio de Israel e expulsão dos judeus de toda a Palestina. A questão parece estar sempre à beira do impasse, e os ideólogos apaixonadamente defendem a causa que que lhes parece ser a única justa, quando, na verdade, a legitimidade oscila sem pender definitivamente nem pro lado do povo judeu, nem para a causa dos palestinos.
No Brasil, não é dramalhão prever que cedo se chegará a meio milhão de mortos pela Covid. É como se morresse toda a população de Macapá, hoje com 521.902 habitantes.
Nossa democracia é representativa. A vontade do povo brasileiro deve ser expressa pela voz dos representantes que integram o Congresso Nacional – Câmara dos Deputados Federais e Senado da República.
No Senado, nossa Câmara Alta, com destacada atuação do senador amapaense Randolfe Rodrigues, assiste-se o desenrolar dos trabalhos de Comissão Parlamentar de Inquérito, instaurada com o objetivo de apurar o comportamento dos quem de direito no enfrentamento da pandemia. Entre os senadores, há os que fazem oposição e os que apoiam o presidente e sua equipe de governo.
Por inferência puramente lógica, há também os da coluna do meio. Mas, levados pela legenda à qual são filiados, não podem os senadores furtar-se por inteiro de se manter fiéis à ideologia partidária. Difícil, portanto, cobrar dos inquisidores não pender nem para buscar o máximo possível de falhas na administração do combate à pandemia, ou, ao invés, de não se esforçar denodadamente para defender com unhas e dentes o Executivo Federal. Quanto aos chamados isentões, se os há, tempo dirá como se comportarão. O certo é que a fidelidade partidária não permite que se espere dos parlamentares integrantes da CPI da Covid a imparcialidade que se pode – e se cobra – do magistrado em um julgamento. Afinal de contas, a comissão conduz um inquérito. Portanto, concluídos os trabalhos, os resultados é que poderão, ou não, levar ao indiciamento e abertura do competente processo judicial.