Somos ausentes, presentes.
O nosso foco foi roubado de nós, por nós mesmos! Já não sabemos estar onde estamos. Conseguimos estar em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em nenhum deles.
Muitos já não conseguem ler um livro – ou ler com a mesma facilidade de antes.
Tudo ficou imediato, rápido e superficial. O raso virou o novo normal.
Em compensação, submergimos num mundo profundo e praticamente infinito na sua mutável configuração, onde discorrer sobre gigas, wi-fi, 5G e HD parecem definir, também, o nosso grau de dependência, que ainda não chegou perto da dimensão não real que a Inteligência Artificial nos propiciará.
Estamos tão conectados que deslizando o dedo na tela em vez de levantar a cabeça e girar o pescoço, para olhar à volta.
Pouco importa se estamos na Bahia, Rio de Janeiro, Londres ou Paris, pois os olhos não se desgrudarão da tela! Temos imensa necessidade de enviar ou postar fotos e selfies que isso parece ter ultrapassado a nossa capacidade de usufruir do lugar, de sentir os cheiros e sabores, de apreciar o céu, a arquitetura e as pessoas.
Hoje, mais vale um selfie com a Monalisa do que admirar a pintura. Vivemos de troféus efêmeros, que duram até a próxima postagem. Deixamos de viver o íntimo dos nossos desejos para padronizar as nossas ações segundo algo que agrade a outros. Não fazemos mais exatamente o que gostamos. No lugar disso, fazemos o que nos pareça digno de curtidas.
Onde deixamos de ser os indivíduos que vivem a sua individualidade, para ser sujeitos em rede?
Até houve tempo em que viajávamos e, por nos perder entre mapas de papel e informações, encontrávamos algo pitoresco ou experimentávamos novidades únicas, algo que perdemos com o GPS e os aplicativos afins… Essa tecnologia nos furta o encontro com a surpresa, a novidade plena e o acaso, a tal ponto que fica impossível se vivenciar a sedutora conquista do inesperado, seguir a dica de algum morador local ou conhecer o amor da sua vida na esquina do acaso.
Somos mais previsíveis, medrosos, instáveis e vulneráveis. Somos menos desbravadores e conquistadores. Somos a cria perfeita de padronizados reprodutores de ações e pensamentos coletivos.
Ao mesmo tempo, precisamos de foco para várias atividades. Necessitamos de concentração para uma série de acontecimentos. Isso conflita com a migração da nossa atenção do mundo real para a irrealidade virtual, onde o que existe é reconstruído exatamente para nos prender a atenção.
Com isso, somos levados a não prestar atenção ao que nos exige foco e senso crítico e nos deixamos levar por coisas que simplesmente consomem o nosso tempo, cada vez com maior capacidade.
Neste contexto, a sociedade adoece tanto e tanto e cada vez mais, na exata dimensão da nossa anestesia ante tantas coisas que ocorrem à nossa volta, os desmandos da política, os desajustes ambientais, econômicos e sociais e os problemas muito maiores do que o preço do pão e do preço do transporte público. De tanto depender do mundo digital e desse embotamento contextual, parece que estamos menos resistentes às utopias e promessas sem lógica e sentido. É como se o real cedesse ao virtual e o Matrix fosse o novo normal…
Focar na solução dos problemas nos exige compreender o contexto e estudar a sua causa e desdobramentos. Sem análise crítica e concentração e foco, não conseguimos mais do que avaliação rasa e que nos leva, não raro, apenas às zonas sombrias de onde emergem e ao sim ou o não – sem a substância dos fundamentos.
Noutro foco, a empatia vai longe, quando coisificamos as relações e nem percebemos no outro a dimensão humana…
A sociedade, entorpecida, tropeça, por ser a Democracia um sistema que precisa de cuidado constante, tal qual uma planta, que exige rega, terra fértil e luz, para crescer, florescer e frutificar.
Se não associamos a galinha à carne de frango, a vaca ao leite em caixinha e os vegetais à terra onde são cultivados, como seremos capazes de compreender o real e a fantasia e dar atenção profunda e focada aos mecanismos da vida política e à ação dos governantes e, como donos do poder, agir para responsabilização dos desmandos e a busca de soluções para o cotidiano social?
Sem estar atentos ao que ocorre à nossa volta, mais ficamos sujeitos a não perceber que o avião se perde em meio a tempestade e que, pelas fortes turbulências, começam a aparecer falhas estruturais na aeronave e a queda das máscaras de oxigênio… nesse momento, o mais animal instinto despeja adrenalina e aí, surtados, talvez acordemos para a realidade… Mesmo assim, talvez ainda haveria quem postasse foto do momento derradeiro, como se isso conferisse imortalidade.
As coisas estão complexas e confusas. O relativo tem sido visto como certo, enquanto o certo tem sido visto como relativo.
Não precisamos ser cientistas, pesquisadores ou especialistas em qualquer ciência para perceber que algo não está indo como planejado… ou, melhor considerando, será que isso não é do agrado dos detentores do poder?
Como, de repente, tudo ficou chato? Por qual motivo?
Percebamos que algumas respostas só podem surgir se formos capazes de formular a pergunta certa… Já notaram como parece que há mais conversas onde não se escuta exatamente o que é dito? É como se o entrevistador perguntasse algo e o entrevistado respondesse outra coisa.
Estamos num momento curioso, onde muito é exibido nas redes sociais. Muitas imagens em substituição aos textos. Tudo rápido, colorido, musicado. Nada frugal, nada suave, nada sereno. Tudo veloz, ansioso, caliente, sedutor. Nada profundo, inteiro, amarrado em boas premissas.
Como tudo é rápido, tudo é substituível. Como tudo é efêmero, pouco é absorvido.
A superficialidade faz tudo girar mais rápido e os comprometimentos são menores a cada dia. Parece que não nos importamos muito com pessoas, sentimentos ou compromissos, pois tudo isso é chato, exige reciprocidade e responsabilidade. Como vivenciar algo assim quando os olhos estão grudados nas telinhas e nem notam o que está ao redor?
Quanto tempo conseguimos passar com um livro na mão e quantas páginas conseguimos ler e assimilar? Quinze minutos ou duas horas? Alguns sentirão dificuldades com esse tempo dedicado a apenas a ler, embora consigam passar o dobro desse tempo olhando o celular e se distraindo com imagens e mensagens sem sentido.
Nosso foco está desfocado e não sabemos estar onde estamos. Isso deve nos dizer alguma coisa, sobre o presente e sobre quem seremos no futuro.