Por que diabos se fala no Anjo Decaído, e o que ele tem a ver com o jogo de xadrez? Explico, mas ainda lanço mais confusão ao antecipar que, aqui, começando pelo Demo e passando pelo jogo de tabuleiro, vou acabar falando de política. Só ao concluir a matéria é que eventual leitor dará o xeque-mate ou derrubará seu rei.
Bolsonaro foi eleito porque – óbvio – obteve maioria dos votos levados à urna. Mas ninguém precisa ser cientista político para constatar que os votos vencedores não foram exatamente pró-Bolsonaro. Estes, certamente que os houve. Porém expressivo percentual dos sufragistas não estava elegendo o capitão pelos méritos do candidato, e sim para aliviar-se dos desacertos da era lulopetista e da corrupção desenfreada que levaram o país à bancarrota. Há até quem diga que Lula, à sombra de quem Haddad lançou-se em campanha, junto com Dilma e correligionários, ao insistir até a última hora em permanecer candidato alimentado pela esperança de que seria homologado seu registro como candidato à presidência da República, acabou sendo um grande cabo eleitoral de Jair Bolsonaro. Si non è vero…
A sucessão de Bolsonaro só se dará em 2022. Contudo, já transcorreram muitos meses de governo, e os acertos e desacertos do capitão vão se inscrevendo em sua biografia. Pesquisas atualizadas, com crescente aumento de popularidade do capitão, ainda que com oposição relativamente consistente, indicam que Bolsonaro vai correr atrás de um segundo mandato. Ainda não se firmou no horizonte uma liderança forte o bastante para fazer face ao presidente. Até mesmo Sérgio Moro, que abriu franca divergência contra o presidente a quem serviu como ministro da Justiça, não encetou campanha visando ao sufrágio geral de 2022. No tabuleiro de xadrez da política, as peças apenas começam a se mexer.
No quadro atual, ainda mais próximo das jogadas de abertura com o peão na quarta casa do bispo do rei; com os cavalos e torres a se libertarem para os movimentos de ataque, evidencia-se por ora a forte polarização: de um lado, correndo pela esquerda, a turma do Lula-livre a desancar sem dó nem piedade a direita bolsonarista; de outro, estes últimos a bater e rebater as guinadas de seus antípodas, esforçando-se para tornar cada vez mais exuberantes os males que entendem que a esquerda causou ao Brasil, ameaçando levar o país à situação lamentável da Venezuela. Pelo centro, forças poderosas se organizam para servir como fator determinante no resultado das eleições gerais, embora atos falhos como o do senador centrista que escondeu dinheiro na cueca abalem a credibilidade dos correligionários e de todos.
Experimentadíssimos líderes políticos, entre eles o presidente Sarney, têm mantido certo silêncio sobre o que fazem as vertentes políticas: esquerda, direita e centro. Outros, como FHC e Tasso Jereissati, já se permitiram especular sobre um futuro candidato à presidência da República que surja com o propósito de apaziguar as atuais paixões extremistas de um lado e do outro. Têm por certo que o eleitorado vai acabar enjoando de tanto Lula-livre pra cá, Lula-preso para acolá, de bolsominions pra cá e contrários para acolá, vai acabar esperando a vinda de uma candidatura de conciliação que ajude o povo brasileiro a sair da ainda hoje persistente polarização. Paixões, um dia dirão as gentes, deixemo-las para o futebol, onde os antagonismos do Fla-Flu, do Grenal, do Cruzeiro-Atlético, do Paysandu-Remo, cedem lugar àquela unanimidade em torno da Seleção.
Como se evidencia, embora ainda muito cedo para afirmar o surgimento deste novo e episódico messianismo, dado a que as eleições gerais só virão em 2022, nomes já se alinham com olho na corrida eleitoral futura e vontade de se instalar no Alvorada.
Os votos de Haddad não foram inteiramente petistas, assim como os de Bolsonaro não vieram todos do PSL. De um lado e de outro, os votos contra o adversário e o que ele pudesse representar foram decisivos para definir o resultado. Tudo isso abriu, e vem abrindo, cada vez mais espaço para o aparecimento de candidatos que, se não se apegam decididamente à situação ou à oposição, aproveitam a bipolarização para navegar em águas mais mansas da posição do meio, nem tanto pra lá, nem tanto para acolá. E é assim que surgem nomes como o de João Dória, governador de São Paulo. Moro é até agora não mais que uma perspectiva, e dele não se pode dizer que é candidatura sólida.
Não se descarta possível movimentação de Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, embalado pela brilhante vitória na aprovação da reforma da Previdência, com apoio de colegas parlamentares, entre eles o senador Davi Alcolumbre, este com atuação equilibrada no Congresso Nacional e sonhando com a possibilidade de novo mandato na presidência do Senado da República. Ah, o fascínio do poder!
Por enquanto, na política a bola da vez são as eleições municipais. Foram campanhas singulares essas, a dos candidatos a prefeitos e vereadores. Não houve palanque, não houve comícios, não houve churrascos nem outros chamarizes. A pandemia não deixou.
As visitas aos redutos eleitorais, as fotos com criancinhas no colo, os abraços nos compadres e comadres, os bailaricos, as noites fora de casa em extenuante vigília, tudo aquilo que representava rotina do aspirante ao cargo eletivo, nada disso pôde acontecer nesses rincões do continente chamado Brasil. O isolamento social para impedir ou ao menos reduzir a contaminação pelo vírus, tudo isso fez das outrora apaixonadas eleições municipais um zunzunzum pelas vias eletrônicas, e só. Apenas muito recentemente os esperançosos concorrentes viriam a mostrar suas caras e desfiar suas promessas pela televisão. Veja-se bem: pela televisão, e olhe lá…
2020 deu no que deu: o mundo de cabeça pra baixo. Gente com medo, gente de máscara, álcool em gel e líquido consumido aos milhões de hectolitros, e não para a felicidade dos pinguços, mas para servir à paranoia geral de higienização com vistas a manter-se livre da Covid 19. De tudo resultou que aquele que era o mais vibrante e apaixonado dos concursos eleitorais, justamente por serem aqueles em que os candidatos são vizinhos de porta, de bairro ou de cidade daqueles cujos votos buscam conquistar, vai acontecer com elevado índice de indiferença pelo cidadão. Cidadão que vai às urnas apenas porque o voto é obrigatório.
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor