Falando com alguns alunos, após a aula de Redação, sobre alguns assuntos que poderiam cair no Enem, ouvi de um aluno a seguinte proposta:
- Professor, por que você não fala para nós sobre a vida? – indagou o aluno. (Esses alunos estão na faixa etária entre 16 e 18 anos).
Parei por alguns segundos e pensei: Por que não falar sobre a vida? Por que não a relacionar com uma dissertação?
Então, falei para eles. - Vocês sabiam que a vida é um texto que escrevemos a cada dia? Um texto que tem todas a mesma estrutura existente em uma dissertação?
Todos os alunos me olharam com espanto e surpresa expostos nos olhos. – Eu nunca pensei na vida dessa forma e me parece ser algo muito interessante. – Disse-me um aluno que demonstrava muito interesse nessa linha de pensamento. - Aah! Nós vamos ficar aqui para ver se realmente há essa relação entres vida e dissertação, ou se a vida é um texto a ser construído diariamente. Falou uma aluna que parecia desconfiada, mas curiosa.
Eu disse a eles: – Então, meus nobres e amados alunos, vamos nos sentar e conversar sobre essa maravilhosa dissertação que chamamos de vida e saibam que vocês são os principais escritores das suas.
Com os olhos arregalados, esperando pelo início da conversa, os alunos se sentaram e começamos a conversar sobre a vida e percebi que toda atenção devida estava sendo dada a mim naquele instante. Então, perguntei a eles: - Qual é a estrutura da redação em um texto dissertativo? Alguns alunos responderam: – Introdução, desenvolvimento e conclusão. – Exatamente, -disse-lhes eu.
Na introdução, devemos expor o problema e o caminho a ser seguido para expô-lo ou para defender algum ponto de vista a respeito dele. É assim quando nascemos. Somos apresentados ao mundo, não como fôssemos um problema com alguma solução para resolvê-lo, mas como um texto novo às nossas famílias, mas podemos entender que esse caminho a ser seguido fosse todos os sonhos e desejos que os pais têm para o futuro dos filhos. Começamos sendo uma incógnita, pois acabamos de nascer e representamos algo novo na vida de alguém que deseja, imagina e espera por algo positivo para o amanhã, pois somos um presente esperado com um futuro promissor, e o futuro é sempre uma cortina do amanhã a ser descortinada ao amanhecer.
Alguns alunos se olhavam e me olhavam perplexos com o que estávamos abordando, pois nunca tinham olhado a vida dessa forma.
Então, um deles me falou com um tom meio brincando. - Professor, o senhor não é normal, quero dizer, comum.
- Realmente os poetas não o são, digo, o olhar do poeta é o seu diferencial, ele vai sempre além do normal. -disse-lhe eu achando graça…
- Continuemos o cortejo!
Um aluno indagou - Cortejo? Quem morreu? Perguntou um aluno meio desatento (coisa de alguns adolescentes).
- A ignorância. – Lhe respondi. E todos caíram na risada.
Perguntei a eles: – depois da introdução, o que vem? - O desenvolvimento. – Responderam-me eles.
- Muito bem. É no desenvolvimento que se encontram os argumentos, opiniões, estatísticas, fatos e exemplos. Ao apresentá-los você deve sempre se direcionar para um lado da questão, um ângulo de visão, uma opinião específica. Essa opinião deve ser anteriormente pensada e analisada para que se possa fazer uma boa argumentação ou exposição.
Essa é a parte do texto que vocês terão que colocar todo o seu conhecimento de mundo, tudo o que conseguiram observar e captar no dia a dia. Entendam que esse desenvolvimento contém algumas fases, pelas quais algumas vocês já passaram e outras que irão passar. Entendam, os seres humanos passam por 4 fases na vida, que são: infância, adolescência, idade adulta e velhice, fase esta que já começo a ver a curva, mesmo que distante. Elas ocorrem dentro do ciclo da vida que possui dois grandes eventos: o nascimento e a morte e nos trazem mudanças física e psicológicas percebidas em nossos corpos e comportamentos. – Disse-lhes eu.
Há muito a se falar em cada uma dessas fases. Há problemas e fatos a serem encarados e resolvidos, há ângulos de visões e opiniões diferentes e que servem para o nosso próprio desenvolvimento. Lembrem que voltar no tempo, para reviver uma dessas fases, não é erro algum, digo, adulto voltar a ser criança, muitas vezes é para entender a criança ou sentir o saber da inocência ou até mesmo voltar à adolescência para entender os adolescentes.
Disse-lhes: – Eu mesmo muitas vezes acordo tendo a sensação de que estou “adolescendo” naquele dia, pois acordo cheio de energia, sonhos, desejos, objetivos, planos etc. Aprendam que ser jovem não tem a ver com a idade cronológica, mas sim ter as características da juventude e trazer isso para a alma. Certa vez, perguntaram ao ator americano Clint Eastwood o que ele fazia para estar com 87 anos e ainda trabalhando como se fosse jovem, ele respondeu: – nunca abri a porta para a velhice. Ele acabou de fazer um filme e dirigi-lo aos seus atuais 94 anos. - Qual é a última etapa da dissertação, meus amados? – Perguntei a eles.
Isso mesmo! A conclusão. Nela, você deixa claro o objetivo da sua dissertação, expõe o ponto de vista defendido ou a conclusão da sua exposição de forma que se arremate todos os argumentos utilizado durante a construção do seu texto.
Pensem que assim será quando atingirmos a fase da velhice. Falaremos sobre a vida, vamos expor sempre o ponto de vista que defendemos, arrematando tudo aquilo que utilizamos durante a construção de nossa vida, esse texto maravilhoso que escrevemos a cada dia o seu desenvolvimento, e não se espantem se no final de sua conclusão vocês perceberem que há muito a ser escrito. Desta forma, oro que vocês possam escrever, a cada dia, esse texto incrível dado a nós pelo criador, sem esquecer que viver a vida e escrevê-la a cada dia.
Eles se levantaram em silêncio, alguns se despediram com abraços e outros com aperto de mão, mas com os olhos cheios de agradecimentos e as mãos ávidas para começarem a escrever diariamente as suas vidas.
Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não
conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer
entendimento.
(Clarice Lispector)
Na calmaria do dia
Somos pássaros cantando
No silencio da manhã
Escrevendo a vida.
(Jorge A. M. Maia)