Afirmou que será muito bem tratado e acolhido em sua coleção de livros do Karl Marx, agradeci por ter enviado as fotos e por todo o carinho pois para mim foi uma feliz surpresa, tanto quanto o foi para meu amigo que fez questão de compartilhar o achado.
E assim tem sido em minha vida a presença de meu pai por “coincidências” porque ele se suicidou em 13 de abril de 1984 e apesar de ter lembranças desde meu aniversário de 2 anos de idade, como convivi com meu pai até menos de um mês antes de completar meus 6 anos, tenho memorias dele em minha vida, das viagens para Belém, dos passeios em praias do interior do Pará, dele nos meus aniversários e passeios pela cidade de Macapá, das idas à antiga Gruta e à praia da Fazendinha.
Na época, por ser criança, não me dei conta do que significava a sua morte e isso perdurou por alguns anos, o que sabia naquele momento é que não o teria mais presente fisicamente em minha vida, sem saber das formas curiosas dele se fazer presente no futuro.
As ausências foram duras, os momentos que passei, que precisei daquele ombro amigo, ou daquele puxão de orelha, de desabafar com alguém, ou de apenas chorar não pude contar com ele, não pude ouvir dele sua experiência de vida, sobre a sua infância, sobre o seu trabalho e seus amigos.
Na realidade os amigos e amigas de meu pai, além dos parentes é claro, me contaram quem ele era, como ele era, seus gostos e suas preferências, como fumar cachimbo e se vestir de Carlitos nos carnavais, personagem interpretado pelo ator Charles Chaplin e tanto em sua casa como na casa de minha avó materna tinham alguns quadros com fotos deste artista, o qual ele considerava o melhor do cinema. Era festeiro, boêmio e nunca deixava de pular a quadra carnavalesca.
A cada amigo de meu pai que se aproximava de mim tomava conhecimento de algumas de suas estórias e assim passava a conhecê-lo mais um pouco, parecia que eles vinham suprir as conversas que não tive pessoalmente com ele, amigos seus que passaram a ser meus amigos, como Fernando Canto, José Jeová Marques e sua esposa Júlia Marques, Olivar Cunha, professor Ramalho e Gilson Rocha. Sem saber no início, acabei me tornando amigo de filhos de amigos de meu pai como o Marcelo Guido, o Jeová Júnior, o Jeovany Marques, o Bio Vilhena, o Gilsinho Rocha e a Gilmara Rocha.
Com o contato com essas pessoas próximas a ele fiquei sabendo de sua inteligência, do quanto gostava de ler e devorar livros na mesma proporção que escrevia seus artigos de economia, seus contos e poesias.
Formou-se em Economia, foi representante de classe fundador e primeiro presidente eleito da Associação Profissional dos Economistas do Amapá em 1983, era escritor, poeta, cronista. Participou de concursos literários no colégio Amapaense onde estudou, ganhando o 1º Lugar com “Vida e Obra de Ruy Barbosa”, dentre outros dos quais participou.
Era contrário e crítico ferrenho do regime militar e por isso quando descobriram ser autor de vários artigos considerados subversivos pelos militares passou a ser perseguido politicamente.
Mas também o conheci através do livro póstumo “Evandro Salvador: Artigos – Contos – Poesias” publicado por seus amigos e familiares e organizado pelo Fernando Canto.
Como poeta assinava Raimundevandro, um de seus pseudônimos. Em um dos trabalhos que apresentei na 7ª série (atual 8º ano do ensino fundamental), estudando no Colégio Amapaense, utilizei uma de suas poesias para a apresentação de um trabalho. A professora gostou pediu para ver o livro, devolvendo-me depois.
Trabalhou na antiga Assessoria de Planejamento do Governo do Território Federal do Amapá, a qual passou a se chamar SEPLAN, e de acordo com alguns amigos, seus trabalhos ainda eram utilizados por lá mesmo depois de décadas de ter deixado de trabalhar naquele órgão.
Muitas e muitas outras estórias tenho de meu pai, estórias que se tornaram lembranças juntamente com as que eu tenho dos meus 2 aos 5 anos e apesar da ausência em boa parte de minha vida, elas ajudaram a formar o meu caráter, até mesmo meu gosto pelas letras e por escrever herdei dele, vindo a perceber isso após escrever minhas primeiras poesias e críticas ao sistema social, político e econômico no qual vivemos.
Certa vez, após assistir e me emocionar com o filme “Campo dos Sonhos” junto com minha esposa, o telefone de casa tocou e era um amigo de meu pai que morava em outro Estado e queria saber notícias dele (não sabia do seu falecimento) tendo procurado o seu nome na lista telefônica achou o meu ligando em seguida para saber se era de seu amigo, conversamos por um tempo e disse do seu falecimento há anos, desligou e nunca mais consegui contato. Essa foi mais uma forma de meu pai se fazer presente naquele momento singular, mesmo depois de anos e anos de sua partida
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Não sei quais lembranças teria dele se ainda fosse vivo, mas as que tenho são as melhores possíveis.
Talvez mais lembranças de abraço fraterno entre um pai e um filho, mais risadas, passeios juntos, conversas e até mesmo discussões fariam parte delas, mas as que tenho já me enriquecem a vida de uma forma que pra mim é reconfortante conhecer o meu pai, saber da sua vida, mesmo com a sua ausência.
É claro que para mim meu pai foi e é o melhor do mundo e antes que venham falar sobre o abandono que sua partida representou em minha vida, eu afirmo que já o perdoei pelo que fez e, assim como meus tios e tias, trabalho no campo religioso pela sua cura no campo espiritual.
Não é lamentável amar um pai que partiu cedo demais, é lamentável se afastar do pai que se encontra vivo e com o qual você pode conversar, tocar, admirar, apoiar e ser apoiado.
Sou e serei eternamente grato ao meu pai por ter sido para mim o exemplo que foi em vida e não procuro seguir os seus passos somente por causa dessa admiração, mas por ter herdado um pouco do seu gosto pela leitura e pela escrita.
E a ausência dele em minha vida procuro compensar sendo presente na vida dos meus filhos, dando amor, carinho e ensinado a serem pessoas melhores.
Nesses Dia dos Pais desejo a todos os pais e filhos para Terem à Família Amor.
Evandro Salvador Junior
Advogado, conselheiro da OAB/AP de 2010 a 2012 e diretor tesoureiro da OAB/AP de 2013 a 2015