O LORDE INGLÊS AMAZÔNICO
Acontece que nunca adiantou esconder; tornei-me médico e ascendi a “upper class”. De Santarém, a pérola do Tapajós, andei pelo mundo, visitei Manhatan de NYC, Paris, a Cidade-Luz, o Vaticano e o L’ Hermitage em São Petersburgo, bebi vinho Bourbon Pinot Noir em Provence, comi escargot e rã na Côte d’Azur, arrisquei-me no francês, fiquei com ares de Lorde inglês bon-vivant, mas a boca… ah, esta nunca deixou de ser roxa de açaí; minha alma cabocla resiste. Jamais fiquei de nariz empinado, ainda que tentasse, pois o bico denunciava o mais puro sangue Cuiú-Cuiú. É na simplicidade, na cordialidade paraurara, no abraço fraternal do compadrio, no bocejo escancarado, morto de preguiça, o caiçara estirado na rede durante a sesta, com o bucho cheio de maniçoba e camarão, que conhecidos meus dizem: “esse cara é um legítimo caboclo Pai d’ Égua!” Ao conviver com a nata sociopolítico-econômica belenense, cuja inspiração eurocêntrica no início do século XIX nos fez bairrista, parecendo ter o “rei na barriga’ (diziam os maldosos que muitos não tinham nem no “c que periquito roa”), sem querer, é claro, influenciado pelo meio, a gente acaba incorporando o ar da clássica fina estampa burguesia paraense, porém meus compadres, só para me atazanar, dirão rindo que sim; sou um legítimo paraense papa chibé, “que só quer ser, cheio de pabulagem”, mas que esse mocorongo nascido às margens do Tapajós é um bom “burguês caboclo”, filho do sincretismo entre sagrado e o profano, da floresta e do asfalto, do clássico ao popular, de sabor agridoce, gente boa e que na hora H, como médico, sempre esteve pronto para lhes ajudar, nem que seja para confortar ou relaxado, jogar uma boa conversa fora, meu compadre!
P.S. O texto é uma homenagem ao grande cantor, compositor e poeta brasileiro Osmar Junior Gonçalves de Castro.
Cuiú-Cuiú: peixe bicudo da região do Rio Tapajós.