Na semana passada, o exótico empresário fora convocado para depor na CPI da Covid para prestar declarações em virtude de seu comportamento negacionista durante a pandemia e por defender abertamente o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a famigerada doença, inclusive em sua mãe. Era um depoimento esperado por todos. Havia curiosidade de como o empresário se comportaria em um cenário inquisitório. Protagonizou, junto com os parlamentares integrantes da CPI, cenas lamentáveis de incivilidade e desrespeito. Ao final, contudo, a militância bolsonarista considerou sua participação um banho na cúpula da CPI que é odiada pelo governo.
Luciano Hang é exatamente o retrato perfeito e acabado da direita conservadora e dos brasileiros que apoiam a governo Bolsonaro. Não há um mínimo de lucidez e coerência na argumentação e no comportamento. Sua imagem associada ao personagem de Walt Disney bem retrata esse colapso mental. Ninguém em sã consciência adotaria a imagem do Zé Carioca para revelar o patriotismo que sugere. Zé Carioca é a imagem estereotipada do americano sobre o povo brasileiro e latino. Ancora-se em atributos poucos recomendáveis como o jeito exótico e a fala temperada por ginga e malandragem, segundo narra o escritor Ezequiel de Azevedo no livro O Tico-Tico: Cem anos de Revista.
O pior, contudo, foi Luciano Hang se transformar em ídolo e símbolo da direita pelas suas argumentações na CPI. Foi tratado como um argumentador supostamente intelectual e astuto. Seus admiradores, para aclamá-lo, editaram sua participação na CPI e celebraram, como um gol, cada resposta ou insulto do empresário aos membros da CPI. Cenas de ruborizar os mais tolerantes com a insensatez e ignorância. Semanas antes, os mesmos protagonistas da celebração ao Zé Carioca da política brasileira, nos cem anos de Paulo Freire, produziram uma série de insultos a um dos maiores expoentes mundiais da educação. Para eles, as lições de Paulo Freire nada produziram a não ser a militância esquerdista com seus juízos críticos e destrutivos da educação. Valem mais as lições de Luciano Hang que a história tratará como chacota de indiscutível mau gosto, num verdadeiro tributo à vergonhosa insensatez.