Com a iminente mobilização às urnas cada vez mais próxima, o período eleitoral efervescendo e, por conseguinte, também a animosa polarização política, coragem, talvez seja o termo mais adequado para descrever um filme com uma promessa de politização tão forte quanto “Marte Um”.
A começar por sua instigante sinopse; Deivinho (Cícero Lucas) é um menino cujo maior sonho é ser um astrofísico renomado e participar de uma missão Marte Um, missões só de ida ao planeta vermelho para colonizá-lo, enquanto isso, seu pai projeta nele um sonho que na verdade traduz sua maior perspectiva de vida para a família: que ele seja um grande jogador de futebol do Cruzeiro.
Ao passo que a matriarca descobre uma doença e Eunice (Camila Damião), a filha mais velha, se vê dividida entre a dor de deixar a casa dos pais e a vontade de dividir um apartamento só seu com a namorada, tudo se torna ainda mais complicado. Essa família preta e pobre, precisa viver seus dramas pessoais em meio a periferia de Contagem (MG) e à eleição de, como a própria sinopse sugere “um homem de extrema-direita que representa o contrário de tudo que eles são”.
Uma expectativa muito sólida se ergue no imaginário do espectador ao ler uma sinopse como essa: a de que a história o faça perceber, exatamente, como o último mandato tem abandonado essas pessoas. Infelizmente, a ousadia inicial que tanto a sinopse quanto o trailer transmitem não corresponde ao filme. A narrativa é sim, muito tocante e consegue transmitir com sensibilidade, um roteiro fluido e uma bela fotografia, o peso emocional que cada vivência desperta nas personagens, bem como as dificuldades que o contexto as impõe e como são um fator externo a elas. Mas, ao contrário do que a sinopse induz, o longa se sustenta muito mais pela trama pautada em conflitos internos e proposição de pautas sociológicas do que pelo viés de crítica social em si.
A impressão que fica é que a história tenta amarrar tantos temas ao mesmo tempo que, ao final, sobra uma lacuna. Transitando entre discussões sobre feminismo, saúde mental, racismo, homofobia e alcoolismo, a narrativa se perde e, de quebra, perde parte de seu potencial em meio à própria complexidade. Novamente, isso não implica em completo desperdício, já que as questões pessoais atinentes a cada um na família empolgam junto ao pano fundo de um país em decadência, cujo decaimento começa sempre por baixo. Além disso, a perspectiva que a direção de Gabriel Martins traz ao conjunto é sensacional; realmente linda de se ver, conseguindo fazer o espectador esquecer, por breves momentos, das questões que se perdem no meio.
O elenco se entrega aos papéis com tamanha verdade que, em muitos momentos, faz questionar quantas realidades se enxerga naquelas cenas. A fotografia capta a essência de cada cenário, a brasilidade em cada um deles, com a verossimilhança de um documentário. Querendo ou não, é uma perspectiva essencialíssima de se ver, de perceber com sensibilidade, especialmente em um país tão desigual quanto o nosso. Ver as personagens afundadas em sonhos tão grandes inseridos em uma realidade extremamente adversa provoca um misto de sentimentos, desde tristeza, até esperança. E se não a esperança, a vontade de mudar esse cenário, o que pode amparar tantas famílias como essa?
Ainda que a própria premissa não se aprofunde em si tanto quanto poderia, no fim das contas, “Marte Um” empolga pela discussão importante e se sustenta, sem sombra de dúvidas, por trazer à tona visões tão invisibilizadas, como um exemplar belíssimo do cinema nacional contemporâneo. Contudo, é a prova de que mesmo querendo, não se pode abraçar o mundo com as mãos.
O longa pode ser visto nos cinemas brasileiros e no Globoplay.
A começar por sua instigante sinopse; Deivinho (Cícero Lucas) é um menino cujo maior sonho é ser um astrofísico renomado e participar de uma missão Marte Um, missões só de ida ao planeta vermelho para colonizá-lo, enquanto isso, seu pai projeta nele um sonho que na verdade traduz sua maior perspectiva de vida para a família: que ele seja um grande jogador de futebol do Cruzeiro.
Ao passo que a matriarca descobre uma doença e Eunice (Camila Damião), a filha mais velha, se vê dividida entre a dor de deixar a casa dos pais e a vontade de dividir um apartamento só seu com a namorada, tudo se torna ainda mais complicado. Essa família preta e pobre, precisa viver seus dramas pessoais em meio a periferia de Contagem (MG) e à eleição de, como a própria sinopse sugere “um homem de extrema-direita que representa o contrário de tudo que eles são”.
Uma expectativa muito sólida se ergue no imaginário do espectador ao ler uma sinopse como essa: a de que a história o faça perceber, exatamente, como o último mandato tem abandonado essas pessoas. Infelizmente, a ousadia inicial que tanto a sinopse quanto o trailer transmitem não corresponde ao filme. A narrativa é sim, muito tocante e consegue transmitir com sensibilidade, um roteiro fluido e uma bela fotografia, o peso emocional que cada vivência desperta nas personagens, bem como as dificuldades que o contexto as impõe e como são um fator externo a elas. Mas, ao contrário do que a sinopse induz, o longa se sustenta muito mais pela trama pautada em conflitos internos e proposição de pautas sociológicas do que pelo viés de crítica social em si.
A impressão que fica é que a história tenta amarrar tantos temas ao mesmo tempo que, ao final, sobra uma lacuna. Transitando entre discussões sobre feminismo, saúde mental, racismo, homofobia e alcoolismo, a narrativa se perde e, de quebra, perde parte de seu potencial em meio à própria complexidade. Novamente, isso não implica em completo desperdício, já que as questões pessoais atinentes a cada um na família empolgam junto ao pano fundo de um país em decadência, cujo decaimento começa sempre por baixo. Além disso, a perspectiva que a direção de Gabriel Martins traz ao conjunto é sensacional; realmente linda de se ver, conseguindo fazer o espectador esquecer, por breves momentos, das questões que se perdem no meio.
O elenco se entrega aos papéis com tamanha verdade que, em muitos momentos, faz questionar quantas realidades se enxerga naquelas cenas. A fotografia capta a essência de cada cenário, a brasilidade em cada um deles, com a verossimilhança de um documentário. Querendo ou não, é uma perspectiva essencialíssima de se ver, de perceber com sensibilidade, especialmente em um país tão desigual quanto o nosso. Ver as personagens afundadas em sonhos tão grandes inseridos em uma realidade extremamente adversa provoca um misto de sentimentos, desde tristeza, até esperança. E se não a esperança, a vontade de mudar esse cenário, o que pode amparar tantas famílias como essa?
Ainda que a própria premissa não se aprofunde em si tanto quanto poderia, no fim das contas, “Marte Um” empolga pela discussão importante e se sustenta, sem sombra de dúvidas, por trazer à tona visões tão invisibilizadas, como um exemplar belíssimo do cinema nacional contemporâneo. Contudo, é a prova de que mesmo querendo, não se pode abraçar o mundo com as mãos.
O longa pode ser visto nos cinemas brasileiros e no Globoplay.