A inquietação aumentou. Chegou ao ponto de manifestar-se num nível adiante da tristeza – no nível da raiva! Senti-me tomada por alta dose dela e tudo de degradante que causa no corpo físico. E a ocasião, independente do motivo, provocaria idêntica e vil emoção, a menos que eu conseguisse entender o propagador, a intenção e o propósito da tal comunicação.
O vocábulo melhor, até que seja modificado, alcança sinônimos como máximo, primeiro, soberano, excelente, preferível. E não só. O pior termo pode ser substituído por péssimo, inferior, insignificante, desacertado. Juntando ambos, no uso de uma figura de linguagem, supera a contradição e atinge a incoerência, contaminando de incongruência até quem dela se utiliza.
Um pouco inapropriado -pensei- a sentença de valor do “juiz” anunciante. Juiz, por ser aquele que arbitrou, apesar de distante dos seus efeitos. O lugar, todavia, não precisa vincular-se a espaço-tempo.
Contudo, nesse caso, a premissa cartesiana coube bem: tinha espaço (bem apertado), tinha tempo (minutos que pareciam meses) e transgressor (recebedor da dita decisão). Assim foi feito: solução dada por uma “autoridade” àquela situação submetida à sua “jurisdição”.
Curiosa e censurável a mira e o desdobramento da resolução, quando adentra o foro íntimo de outro alguém. Principalmente, porque a consciência dos limites do que é suportável, seja mental ou físicamente, até onde se sabe, é intransferível. O julgador, Deus empossado, de grandeza inimaginada, se apodera para indicar o “melhor pior lugar do mundo”. E irrecuperável é a condição de quem lhe aceita.
Por falar em vencida, prejudicada e irremediável, a condição psíquica do adepto do “melhor pior lugar do mundo” precisaria de atenção, uma vez que, em três mil anos, a indiferença a julgo alheio trouxe morte e morte de cruz. Então, lavar as mãos conduz ao não renascimento – se é que me faço entender.
O “melhor pior lugar do mundo” seja atribuído à psique, ao corpo físico ou ao ambiente traduz justeza, plenitude e precisão, quando anunciado pelo sujeito que lá se encontra, seja lá qualquer daqueles “espaços” ditos antes. O artifício domina toda a oração, quando quem fala não é quem sobrevive no “melhor pior lugar do mundo”, esteja onde esteja.
E não bastasse a artimanha explícita, o tom não desatrela a astúcia, o dolo e, até, o conluio de quem dela partilha. Notar que o “melhor pior lugar do mundo” ao menor infrator é a casa de recuperação penal, que o “melhor pior lugar do mundo” ao idoso condenado a regime fechado é o presídio, que o “melhor pior lugar do mundo” ao interno que aguarda decisão de juízo, em processo inquisitório, desabona a própria condição moral do defensor do “melhor pior lugar do mundo”, que dele não ocupa.
“Melhor pior lugar do mundo”, “melhor pior lugar do mundo”, “melhor pior lugar do mundo”, “melhor pior lugar do mundo”, “melhor pior lugar do mundo”, “melhor pior lugar do mundo”… Sem a experiência em pele própria, em vida própria, em CPF próprio, o experto interlocutor que proclama o “melhor pior lugar do mundo” pode parecer tolo aos ouvidos de quem viveu indigno e irrecuperável período no “melhor pior lugar do mundo”.
Dias após, a expressão “melhor pior lugar do mundo” era latente, ainda, em meu peito. Desejei o corte kármico, porque aquilo já havia atingido meu autocontrole, meu humor e minha paz. Ceder tamanho poder aos adeptos do “melhor pior lugar do mundo” seria carregar esse time e as suas energias embutidas, em meu campo de vida.
O melhor seria o corte kármico: sem ressentimentos e sem expectativas. Neutralidade pura. Isso é liberdade verdadeira para renascer, para recomeçar. Assim o fiz!
Além das sensações de incompreensão sobre aquele locutor e aquela mensagem controversa, sobre a impessoalidade e toda a raiva que minhas glândulas endócrinas despejaram, entendi que tudo o que cabia a mim não passava da emanação da região entre minhas duas orelhas e, logo abaixo, entre meus ombros.
Poucos centímetros estavam sob meu domínio. Independente do motivo, o que fosse decidido em minha mente, desdobraria em emoção e sobre esses atos, conscientes ou não, eu deveria responder, hoje ou pela eternidade.
Decidi deixar esse peso aos que propagaram saber o que era soberano, excelente, preferível à condição de vida de terceiro. Mais ainda: deixei que carregassem, também, o que decidiram sobre o que tomaram por inferior, insignificante, péssimo.
Se por desdém ou por infelicidade, a decisão daqueles que distribuíram saber qual o “melhor pior lugar do mundo”, abstenho-me de julgar, de conferir razão e de medir desaprovação.
O que se fez “juiz” e vulgarizou os efeitos de sua sentença de “melhor pior lugar do mundo”, certamente, desconhece o lugar referido, mas, essencialmente, perde a oportunidade de não transgredir as Leis Naturais e suas cobranças.
Quanto a mim cabe aceitar a solução dada por uma “autoridade” àquela situação submetida à sua “jurisdição” e seguir, sem nada sentir.