Chegamos à capital paulista e nos hospedamos em um badalado hotel da época, eu ocupando um apartamento, que deveria acolher as atividades desejadas, Beto e Neno noutro. Nem hora decorrida, nos chega a loura paixão e com ela uma secretária e dois jovens acompanhantes. A emoção e o calor do encontro fizeram com que rapidamente a multidão de sete se transformasse em dois pra cá e cinco pra lá.
Próximo ao céu, sonho, êxtase, nem bem me lembro o tempo que se passou de tão bom que era. Até porque, rapaz do interior das Minas Gerais, aprendia naquela cama, coisa moderna que nunca imaginara existir e bem por isto, o despertar veio com um choque. Vindo dos corredores, sons de gritos com meu nome que logo identifiquei como a voz de Neno chamava-me em desespero. Descompostos, jogamos alguns panos sobre os corpos indo depressa a abrir a porta para verificar o que acontecia. Jamais poderia imaginar tal cena…
Neno nu, todo molhado, enrolado em uma minúscula toalha de rosto, dizia em altos brados querer ir embora imediatamente. Acusava a mim e Beto de levá-lo a um mundo e coisas os quais nunca conhecera. Berrava, mas não contava o que era… pelo menos até que ameacei fechar a porta. Aí sim, mostrando-se constrangido pela bela a meu lado, para quem olhava a toda palavra, relatou ainda em alto som de voz, como seu costume, o que se passava. Disse que tão logo entrara no chuveiro, deixando a porta do banheiro destrancada, foi surpreendido lá dentro pela presença de um dos rapazes dos que ficaram com eles. Afirmava aos gritos que era sacanagem do Beto que não só incitara, mas mandara o moço. Nem perguntei o que aconteceu deixando-o tão nervoso na reclusão do banho, nem era preciso…
Situações contornadas apresentaram-me então ao “invasor”, que mais tarde se tornaria nacionalmente conhecido como Clodovil.
Ainda projeto iniciante, procurava firmar-se no mundo da alta costura enfrentando um verdadeiro mito naquele setor. Denner, ainda bem vivo, reinava ditando moda da alta sociedade no país, o fazendo com muita classe e categoria, o bastante para mais constranger o emergente e humilde órfão adotado Clodovil Hernandes. Naquela mesma viajem, contando com presença dos dois, junto a nós em uma mesa de jantar, percebemos a distância de um em relação ao outro. Coisa de capitães e reis.
Daí em diante, uma sadia curiosidade fez-me acompanhar com interesse a carreira daquele novo conhecido em tão estranha circunstância. Poucos anos mais tarde, Denner morto, a ascensão de Clôdo foi notável, o mundo elegante e esnobe se voltou para ele, nada demorando que procurasse maior exposição pública, se tornando apresentador de televisão.
próprio sempre a principal atração. Rico talvez não tenha ficado, mas ficou bem, contando sempre com simpatia e carinho de muitos em diferentes idades e apelo. Famílias inteiras se divertiram com seus programas e porque não, chiliques. Neno à parte.
Homossexual assumido, jamais fez disso alarde nem tampouco bandeira classista de auto – discriminação. Por sinal, sempre foi muito reservado quanto a isto e respeitoso à sua própria opção.
No crepúsculo de sua maturidade, já bem alquebrado por sucessivas doenças e um câncer que o perseguia candidatou-se a deputado. Eleito o quarto mais votado do país, (494 mil votos) sobressaiu-se no Congresso Nacional por dar um responsável pito nos colegas, exigindo o império da ordem no plenário daquela casa, principalmente quando ele ou mesmo outros fizessem o uso da palavra. Embora com curta passagem, tolhido que foi pela morte, por lá deixou inúmeras propostas e projetos de interesses públicos. Deixa um vazio e sentimento de perda; fará falta.
Era enfim, um homem difícil, diferente em meio a espíritos preconceituosos ao seu estilo e comportamento. Sem família ou parentes, se impôs e venceu sozinho, principalmente por não se importar com as diferenças que nunca aceitou existirem, sendo sempre apenas ele, como poucos, homem, um senhor campeão vencedor.
José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.