Não sei se os meninos de hoje ainda se apercebem quando se lhes cresce o pomo de Adão, naquela fase em que os pelos surgem em outras regiões do corpo que não na cabeça; ou quando aquela voz de contralto da infância vai dando lugar à tonalidade mais grave, fazendo surgir tenores, barítonos e baixos, processo em que ocorrem aquelas inevitáveis alternâncias entre o agudo e o grave conhecido como período da mudança de voz.
Faz tempo que só convivo com adultos, por isso não tenho certeza se, no atual panorama de vertiginosas mudanças em tudo que é cenário, em tudo que diz respeito ao modo de viver; nestas interações da contemporaneidade, não estou seguro de que os meninos de hoje passam pela mudança de voz quando se tornam rapazes. De tudo, o que sei é que o timbre, no homem adulto, ordinariamente tende a ser grave, e assim mantém-se durante a vida.
Quando meu filho nasceu, a alegria que senti até hoje não dá para descrever. Foi de uma intensidade tal que ainda reverbera quando recordo daquela carinha enrugada, da tonalidade de um tomate maduro, daqueles olhinhos fechados, daquele projeto de gente quietinho e agasalhado no colo da enfermeira que mo apresentava. Meu Deus, quanta emoção!
Daí me veio uma reação difícil de explicar, tanto quanto é fácil de descrever: minha voz mudou. Ficou aguda como quando menininho. De barítono virei soprano. Durante mais de duas horas, quando tentava falar com as pessoas que estavam no hospital e que me felicitavam pela chegada do herdeiro, minha voz estava fina. Aguda. Voz de menininho. Não, não era voz de mulher, nem falsete de dragqueen. Era voz de menino em sua tenra infância. Bem que eu pigarreava, tossia, fazia pausas, tudo na tentativa de fazer a tonalidade voltar ao normal, mas nada. Durante duas horas, tomado de emoção, falei fino. Muito fino. Até que tudo voltou ao timbre natural.
Passado longo tempo, nasce-me agora mais um filho. Não foi no hospital. Não teve maternidade, nem enfermeira, nem obstetra, nem mãe. O filho que agora ganhei não é propriamente um ser humano; é um livro. Chama-se “O Epicurista”. Não foi gerado a partir da fusão biológica entre homem e mulher, mas nem por isso é destituído de vida, ou lhe falta humanidade. Não é biográfico, mas também não deixa de sê-lo. Como todo filho, traz a carga genética de quem lhe deu origem.
Não veio, este filho mais novo, materializado em folhas de papel. Árvores, deste vez, foram poupadas. A capa, o sumário, a apresentação feita pelo saudoso Carlos Bezerra; o prefácio subscrito pelo comandante e confrade Mauro Guilherme, grande incentivador para que viesse a cabo “O Epicurista”, a quem estou profundamente agradecido. Mauro Guilherme é credor inquestionável da gratidão de muitos que fazem literatura no Amapá.
A tudo quanto já disse, vejo somada a multidão de personagens que povoam os contos incluídos na coletânea. São eles, os personagens, gente criada na minha imaginação. Como disse o Carlos Bezerra, o escritor é metido a dar uma de Deus: cria, destrói, faz nascer e morrer, tira daqui, põe para acolá, pinta e borda, mas muitas vezes a caneta se rebela e passa a imprimir rumos próprios aos escritos.
Em “O Epicurista”, alguns personagens são dotados de vida própria, como o menino Animal, a catequista apaixonada pelo bibelô; o gigantesco soldado Napulião (assim mesmo, com ‘u’ e com ‘i’); Ledo, o taberneiro discípulo de Epicuro; o malandro mineiro que virou golpista carioca; os velhos com seus desvarios próprios da senilidade a matar cobras com rajadas de metralhadora ou a ver fantasmas no museu; juiz, promotor, advogado, depoente, escrivão de polícia, funcionário de autarquia e gnomo irlandês, traveco lobisomem e menina traficante, está tudo lá na plataforma Amazon.com.br. Basta conferir.
Porém não falta vez em que o autor ele mesmo se transporta para o Caribe para estudar vodu, ou quando vira polonês e combate pela Royal Air Force contra o barão von Richthoffen.
Poupadas as árvores, este filho mais novo nasce sem substância física, mas sua essência está viva no mundo virtual. Coisas da modernidade na qual este escrevinhador apenas engatinha, como troglodita jurássico em matéria de informática.
Juiz de direito e escritor