Tempos de menino boquiaberto na beira do cais, embasbacado a contemplar enormes cascos negros de navios vindo de lugares remotos, ostentando nomes evocativos, um chamado “Vamos”, outro chamado “Venimos”, outro, “Pourquois pas”. E dava para imaginar o cheiro de salsugem, o vai e vem das vagas oscilantes em mares nunca dantes navegados. Ondas espumarentas cortadas pelo talha-mar a espalhar cortinas alvacentas enquanto o “Vamos” ia e o “Venimos” voltava a buscar abrigo no porto de escala.
O menino sonhava em fugir do cotidiano para embarcar como grumete a bordo daqueles barcos. Nem lhe passava pela cabeça quão dura seria a faina a bordo; só lhe ocorria a noção de que iria, enfim, saciar aquela sede de aventuras, a ida a lugares exóticos, o enfrentamento de tempestades em meio a ondas gigantescas. Mesmo não sendo fluente em francês, o que aprendera no colégio marista já dava para entender a pergunta sem ponto de interrogação pintada na estrutura do navio: “Pourquoi pas”, “Por que não”; e a resposta seria um sonoro sim: sim para a vida a bordo, sim para descobrir um mundo de coisas novas, sim para a saudade que iria deixar triste a menina para a qual iria mandar cartas lá do outro lado do mundo.
Engajar-se na tripulação e sair pelos mares deste mundo de meu Deus… Mas, e as saudades da menininha? E as provas do colégio que já iam começar? E o pai e a mãe, e os manos, os tios, os primos, os colegas, o molecório do futebol? Como largar esse tanto de coisas tão preciosas sem dar explicação a ninguém?
Naquele tempo em que as flores conversavam entre si, em que a rosa enfaceirava-se para o cravo e a orquídea, esnobe, petulante, fazia pouco das piscadelas que lhe lançava o gorducho girassol; naquele tempo em que um graveto encontrado à sombra da árvore na areia da praia logo se transformava em nave a singrar oceanos imaginários, permitindo ao menino criar as mais mirabolantes peripécias nas quais sempre havia um vilão a ser derrotado, uma mocinha ingênua e pura a ser resgatada, um herói a ser condecorado. Ah, que tempos, aqueles!
Eventual arco-íris a encher de cores o céu recém lavado pela chuva indicaria com precisão o lugar onde o gnomo havia escondido o balde abarrotado com peças de ouro. Bastava seguir o rumo indicado pelo arco do céu e logo o caçador de tesouros iria ter dinheiro mais do que suficiente para comprar o carrão conversível e nele ir buscar a menininha na saída da escola, matando de inveja o colega da série mais adiantada que se achava o máximo ao desfilar pelas ruas num jipe sem capota.
Se o balde do anão estivesse mergulhado nas águas, uma conversa com o comandante de um dos buques bastaria para convencê-lo a arriar um escaler. Nele, o menino, com uma guarnição de esforçados marinheiros, iria achar com facilidade o tesouro, e os sonhos de riqueza viravam realidade concreta. Adeus ao dinheirinho contado para pagar a passagem do ônibus.
Talvez que hoje se sonhe menos do que se devia. A vida, do jeito que ficou, obriga a desenvolver senso prático. Vêm à mente os versos do “Y Juca Pirama”: – “ Não chores, meu filho/Não chores que a vida/ É luta renhida/A vida é um combate/Que aos fracos abate/Que aos fortes e aos bravos/Só faz exultar.”
As rosas calaram. Orquídeas não mais dão foras em esperançosos girassóis. “Vamos”, “Venimos”, “Pourquoi pas”, há muito viraram ferro-velho: foram esquartejados, e suas entranhas refundidas em lingotes empregados na confecção de variadas estruturas. Os arco-íris continuam aparecendo de vez em quando, mas não mais denunciam baldes de riquezas escondidos pelos anões.
O tempo foge e a vida é breve. Pela frente o que se anuncia não mais inclui plantas a trocar inocentes mexericos, nem barcos a desafiar viajores intrépidos, nem paisagens em tons suaves, nem melodias a evocar saudades.