Durante a pandemia, quase todos perderam um ente querido; da família, do trabalho, do círculo de amigos. Em tempos em que o conceito de perda é tão vívido e a morte parece estar sempre à espreita, ‘’Nomadland’’ ressignifica o luto, mostrando que a tão sonhada ‘’vida após a morte’’ começa na Terra, com aqueles que permanecem.
A narrativa segue – literalmente – Fern (Frances McDormand), uma mulher de meia-idade que perdeu o marido e todos os bens depois da Grande Recessão (2000-2010), com isso, decidiu aderir a um estilo de vida nômade, morando num pequeno trailer e viajando pelos Estados Unidos. Ao longo de sua jornada, Fern fez amizades, conheceu perspectivas diferentes, experimentou coisas novas e, acima de tudo, vivenciou seu luto de forma sublime.
O roteiro é o grande ponto de sustentação do filme, adaptado do livro de mesmo nome da autora Jessica Bruder. Através de diálogos profundos e cativantes, o espectador conhece, não só a protagonista, como também uma série de outras histórias de vida contadas por nômades reais que aceitaram participar do filme. Entre um diálogo corriqueiro e outro mais reflexivo, a história progride calmamente, como se a pressa fosse fruto de um passado muito distante.
Cenários também constituem o ponto forte da trama, sempre muito amplos, que transmitem ao mesmo tempo a sensação de liberdade absoluta e a de vazio. Ora em meio à neve e o frio, ora no deserto onde canyons reinam quase sozinhos. Os contrários que unem o filme transmitem uma sensação sem igual, de familiaridade, perda, fascínio e pequenez.
Com fotografia, roteiro, atuação e outros convergindo de forma tão transcendente, a experiência fílmica se torna sinestésica, quase como se o espectador estivesse dentro da história vivenciando tudo ao lado de Fern. Normalmente, o meio literário faz isso com muito mais facilidade, mas a arte de transformar cinema em algo inteiramente tangível para o público requer muita sensibilidade. E isso não seria possível sem a direção estonteante de Chloé Zhao, que independentemente do resultado do título de ‘’Melhor Direção’’, consagra-se como vencedora moral dessa edição.
‘’Nomadland’’ capta a essência do luto de maneira diferente, através da ressignificação da dor e sua conversão em pura vida. Não é à toa que está sendo tão creditado como favorito na temporada de premiações. Particularmente, por ter essa linguagem cinematográfica tão íntima e tocante, por trazer um culto de amor à vida, à natureza e à liberdade, aliados a uma lição tão necessária em meio ao caos em que o planeta se encontra, aposto no filme para vencedor dessa edição.
Porque os melhores filmes têm, além de um corpo bem definido, uma alma, algo a mais para oferecer ao espectador enquanto arte, e Chloé Zhao entrega tudo isso através de um respiro, um poderoso intervalo no meio da mais completa desordem.