Participei recentemente de uma reunião cuja pauta envolveu a crise representada pelo conflito no leste europeu complementada pelas sanções capitaneadas pelo presidente americano Biden e pela Otan, integrada em sua grande maioria por países da União Europeia. Tal crise impediria o acesso do Brasil aos fertilizantes importados da Rússia. Para que o leitor tenha uma ideia o conflito ocorre a milhares de quilômetros e para chegar até ele se precisaria atravessar o oceano Atlântico e toda a Europa, o que não é viável uma vez que a aviação comercial foi atingida pelas sanções e por mar também não seria possível, a viagem seria interrompida por belonaves armadas que fazem bloqueio.
Caso alguém imagine que estou preocupado com o conflito está redondamente enganado, estou sim preocupado com suas consequências para o Brasil. Com o movimento empresarial globalizante as atividades sempre dependerão uma da outra. O conflito no Leste Europeu talvez fosse esperado
para mais cedo ou mais tarde, mesmo assim é um ponto fora da curva, mesmo que tenhamos consciência que foi idealizado e maquinado desde 2014 pelos norte-americanos. Os EUA sempre foram incentivadores e patrocinadores de conflitos internos e externos em outros países como forma de se manter sempre em destaque na geopolítica. Incentivam e depois correm para socorrer, ou seja, ‘dão a unhada e escondem a unha’. Em um mundo globalizado ou não incidentes como esse sempre ocorrerão, volta e meia teremos que enfrentar as consequências.
Nenhuma empresa ou país hoje é uma ilha isolada no planeta Marte. A globalização é uma tendência que veio pra ficar, agora cabe a cada país encontrar a melhor forma de conviver com ela. Não devemos, em hipótese alguma, embarcar em uma viagem de volta ao passado e sim trabalharmos para dar um grande salto para o futuro. Por esse motivo evito escrever sobre a tal guerra, mantenho a minha linha de sempre em defesa do nosso país e do agro. Quem quiser se preocupar com a guerra e emitir opiniões que vá em frente, continuamos a gozar, com algumas exceções, das liberdades de pensamento e de opiniões. É um debate estéril que não leva a nada. A nossa grande preocupação deve ser a quebra da cadeia de fornecimentos de insumos e como superá-la.
A mor parte das soluções que implantarmos agora provavelmente serão temporárias. Creio que o nosso problema não é substituirmos as importações, é sim a concorrência em relação aos preços do que importamos. Afinal é do espírito da globalização o inter-relacionamento comercial entre países onde um complementa o outro e a quebra dessa cadeia provoca o chamado ‘efeito dominó’, sem que possamos prever totalmente seus efeitos colaterais. As atividades empresariais além de ser de risco, também, sempre foram um meio de vida, nunca de morte. Assim, como disse alguém, somente tem desilusões os que se iludiram.
Alguns propõem que as atividades não lucrativas e com possibilidade de prejuízo devam ser transferidas para o “papai governo”, ou seja o ‘papai’ ficaria com o ônus e nós com os bônus. Loucura total, tais sábios esquecem que no ‘frigir dos ovos’ sempre quem pagará a conta seremos todos nós, os contribuintes.
O assunto me faz lembrar a brilhante decisão do STF em proibir o financiamento privado das campanhas políticas, conclusão a conta caiu no nosso colo. Para os mais jovens é bom lembrar que no passado as campanhas políticas eram ‘bancadas’ pela iniciativa privada. Após a brilhante decisão as campanhas políticas passaram a ser bancadas com dinheiro público e como ‘dinheiro público’ é mera fantasia, porquanto, não existe e sim ‘dinheiro do público’, o nosso rico e suado dinheirinho arrecadado através de impostos cada vez mais exorbitantes.
Já que abordei este assunto é sempre bom lembrar que os seres humanos criaram os países e a máquina pública com a finalidade de gerir os bens do público, bens do povo. Nas repúblicas ditas democráticas se criou os três poderes, que para honrar os nomes devem ter poderes equilibrados, o que nem sempre ocorre diante de exemplos que testemunhamos em alguns países.
Os recursos que a máquina pública arrecada de nós devem ser destinados para beneficiar a todos nós, o que nem sempre ocorre, também somos testemunhas de máquinas públicas que arrecadam o nosso dinheiro para se auto alimentar e se tornarem máquinas gigantes para controlar melhor os infelizes habitantes de tais países. No Brasil temos consciência que os investimentos são meras sobras orçamentárias. Recentemente foram lançadas propostas de reformas tributárias que nos seus âmagos envolvem o aumento de carga tributária. Os proponentes não perceberam que não é necessário o aumento de carga tributária para que o governo arrecade mais impostos – basta incentivar e investir na inciativa privada mantendo as mesmas alíquotas tributárias que a arrecadação e a geração de empregos crescerão automaticamente. É uma questão de matemática básica.
Ainda falando das PECs da Reforma Tributária, todas em tramitação tiram dos estados e municípios a independência de legislar em matéria de tributos, tirando-lhes a liberdade que lhes foi dada pela Constituição de 1988. Há os que ‘berram’ que os ricos devam ter sua carga tributária majoradas, como com se as grandes fortunas tivessem surgido do nada por intervenção ‘demoníaca’ e não do esforço de alguns ao longo dos anos trabalhando e pagando os impostos, uma verdadeira punição pelo sucesso.
Ainda há os que se esgoelam diante da grande mídia pedindo aumento da carga tributária das empresas privadas, do setor de serviços e da agropecuária, não sei se trata meramente de inveja, imensa burrice ou má-fé, é desses setores que o governo arrecada de formas diretas ou indiretas e surge a geração de empregos. Sempre lembrando que governo não gera riquezas, empregos ou distribui renda. Com o aumento da carga tributária das empresas privadas elas murcham, deixam de reinvestir e reduzem o número de empregos. No agro o efeito é até mais danoso, a produção de alimentos diminui promovendo a exclusão dos mais pobres do acesso a alimentação em razão de provocar uma enorme alta nos preços, as exportações caem por perdermos a competitividade no mercado internacional e provoca ‘êxodo rural’ em direção às periferias dos centros urbanos.
O que me deixa perplexo é que alguns legisladores ainda não perceberam que a aprovação das atuais PECs em tramitação no Congresso Nacional se configuram um verdadeiro ‘tiro político no próprio pé’, um ataque direto às suas bases eleitorais e políticas. Paralelamente o governo central se tornará um verdadeiro reinado. Brasília que se prepare para receber, permanentemente, governadores e prefeitos que virão de ‘pires na mão’ para uma cerimônia de ‘beija mão’ no intuito e esperança de conseguir mais recursos para seus estados e município.
“Mas como o diabo mora nos detalhes – e o Estado Leviatã está sempre à espreita – o contribuinte deve continuar atento e vigilante” – Geraldo Samor, ex correspondente no Brasil do Wall Street Journal e da International Financing Review (IFR)