Contudo, o ano de 2020 inicia-se com a notícia sobre um vírus que aos poucos se espalhara pelo mundo e que estava também chegando ao Brasil de malas e bagagem, vindo de todos os lugares por meios de transportes variados. Ele também veio pular o carnaval, ele queria entrar na folia, fazer a festa. Veio fantasiado de gripezinha, ou de algo passageiro, e lembro muito bem que no dia 16 de março de 2020, recebemos a noticia que as aulas seriam suspensas por apenas 15 dias, por motivo de precaução, e que logo voltaríamos às atividades normais.
Porém o que se viu foi o começo de um tempo bastante difícil, com muitas incertezas e desespero, de informações desencontradas, e acima de tudo, de muitas perdas, de amigos, entes queridos, pessoas conhecidas ou não. Presenciamos o colapso no sistema de saúde, a ´precariedade dos hospitais públicos e o imenso esforço dos profissionais da saúde para salvar vidas, mesmo sem as condições adequadas para essa luta.
Que tempo difícil, angustiante, onde pairava uma pergunta diária na mente de muitos: Quando isso vai parar? Quando voltaremos a normalidade? Nossa! Agora, além do uso de máscaras, temos que ficar em casa por conta desse tal de lockdown. O que faremos? Não poderei sair, tenho que ficar prisioneiro em minha própria casa? Que coisa horrível, não tenho mais a liberdade de sair a hora que eu quiser, para onde eu quiser. Quando isso vai parar?
Eu e minha família resolvemos seguir as orientações responsáveis da OMS (Organização Mundial de Saúde) e ficamos em casa, porém o que parecia ser algo enfadonho e triste, se tornou algo prazeroso e profícuo e esperançoso. Embora, tivéssemos decidido olhar este momento obscuro de forma bem otimista, o que me trouxe uma nova visão para todo esse tempo difícil, foi um texto de Garcia Lorca que recebi da poetisa e amiga Teia Alves, texto esse que me fez refletir sobre o momento que estávamos passando e como lhe dar com essas dificuldades.
Esse texto não só me trouxe a reflexão sobre aquele instante, mas também me inspirou um outro texto que o intitulei de “O Amor em Tempos Difíceis” e que expressa, por meio de poema, todos os sentimentos ruins trazidos pela pandemia e como o amor pode nos ajudar a sobrepujar todas as dificuldades e tristezas trazidas por momentos, em nossas vidas, totalmente obscuros.
Não se pode deixar de ver que a pandemia, olhando de forma positiva e humanista, foi um tempo de muitas lições e aprendizado, onde, necessariamente, veio a importância de se reinventar, de levar a primavera dentro de si, sentindo o nascer das flores, de viajar por lugares diversos sem sair de casa, deixando que a imaginação dite as regras;
O AMOR EM TEMPOS DIFÍCEIS
Há uma inquietude inquieta
Não por algo suficiente
Um ser liberto e delinquente
por cortes impetrados a ela.
Não lhe falta a sapiência
Para ser liberto em terra
Sem poder soltar sua fera
Diante a tamanha iminência.
Há de usar sua eloquência
O que nos prende nos liberta
Se olhar a alma de forma correta
Alindo ao tempo amor e paciência.
A liberdade é nosso maior anseio
Não é apenas um sonho, e sim
Uma realidade que nos espera atrás
Dos muros de nossos devaneios.
Há portos a desembarcar
Sem poder quebrar as correntes
Se reinventar é ser coerente
Como as ondas sobre o mar.
Depurar pensamentos desastrosos
É elevá-los a extrema nobreza
Novos hábitos à sua beleza
Nos atos de efeito valiosos.
O corpo se fortalece retendo alento
Imaginando a luz em mim
Como tudo brilha no sim
Sobrepujando a dor em contentamento.
Visualizo as cenas que quisera
E as vivo intensamente
Usurpando a dor inteiramente
Me saciando no gozo da espera.
Sublima o desejo a espera
Tornando-o mais poderoso
No pensar de um amanhã grandioso
A fazer ser o que antes não era.
Me privam deixando-me a espera
De tantas coisas mais, eu floresci
Reinvento e recrio o agora
Com a primavera dentro de mim.
Jorge A. M. Maia