É muito comum, mesmo por aqueles que não têm o hábito da poesia em seus dia-a-dias, conhecerem o poeta Pablo Neruda, ou propriamente o seu nome. Um dos poetas, da língua exponha, mais lido, traduzido e celebrado no mundo inteiro. Conhecido também como o poeta do amor, Neruda fazia uso, em seus poemas, da metáfora, algo que ficou como uma marca registrada sua, assim como outras características como: Introspecção, saudosismo, melancolia, erotismo, crítica sócio-política e etc.
Mas não me atarei a falar, hoje, do poeta Pablo Neruda, e sim de uma obra fantástica que o tem como uma das suas personagens principais, a qual dá ao filme um brilho e sentido inigualáveis que dentro da trama, contrasta como um outro personagem e sua timidez, mas com um desejo enorme de amar e aprender sobre o amor, e agora, mais do que nunca, sobre aquilo que o faria expressar, de forma mais intensa, seu amor por sua amada. Tendo no poeta o seu ponto de partida para algo novo em sua vida sem sentido dentro da ilha.
Estou a falar sobre o filme, baseado no livro, escrito por volta de 1970, O carteiro e o poeta, do escritor chileno Antonio Skármeta, um livro curto, mas, nem por isso, desprovido de conteúdo. Com suas poucas páginas, consegue falar de amizade, romance, política e, sobretudo, poesia.
Mário é um jovem filho de pescador, e mora em uma ilha remota na Itália, mas nunca se encontrou na atividade pesqueira, embora tenha crescido numa aldeia de pescadores. Quando seu pai o encoraja a procurar um emprego, ele se candidata à vaga de carteiro cujo único cliente seria o poeta Pablo Neruda, que por razões políticas, se exila em uma ilha na Itália, e assim, passa a viver nessa pequena ilha, e há tanta correspondência endereçada ao escritor que Mario, até então desempregado, é contratado para um trabalho muito simples: entregar as inúmeras cartas que chegam para Neruda. Aos poucos, Mario se torna um estudante do poeta e usa a arte da poesia para impressionar uma garçonete.
Embora sejam diferentes, com idades e educações diferentes, ambos compartilham a alma poética, mesmo que Mário nem ao menos se dê conta disso. Através da poesia, nasce a amizade entre ambos, a qual faz Pablo Neruda, o poeta do amor, dar um livro de poesia para Mário, o ajudando assim na conquista de Beatrice Russo. São os versos do poeta que Mário utiliza para conquistar o amor de Beatrice. “A poesia não pertence ao poeta que a escreveu, mas a quem precisa dela”, diz Mário.
Mário descobre um mundo novo através das metáforas. Passa a ver até sua ilha de outra maneira. As metáforas são muito mais que meros detalhes neste mundo que mescla ficção e realidade, nos ensinam a ver poesia, a beleza e, acima de tudo imagens em outras imagens, em todos os lugares, mesmo nos mais rotineiros detalhes da vida. Quando tentamos explicar, a poesia se torna banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência das emoções que a poesia revela para uma alma disposta a compreendê-la.
Ao ler um pouco de seus poemas, Mário se interessa ainda mais pelas metáforas de Neruda, e aos poucos vai trocando cada vez mais palavras entre uma entrega de carta e outra, e assim formando uma sólida amizade. Nesse meio tempo de entregas, Mário acaba conhecendo Beatrice e ficando perdidamente apaixonada pela jovem moça, filha da viúva dona do bar da cidade. Mário passa a se unir a Neruda para conquistar o coração da bela jovem.
Mário descobre a beleza da sua ilha e grava o som do mar, do vento, a batida do coração do filho para enviar ao poeta. Ele não escreve, mas passa a ver poesia e beleza em tudo. A amizade de Mário por Neruda é impressionante. Mário é fiel ao amigo, não se coloca acima do amigo, nem cobra nada. É uma amizade verdadeira, gratuita. E ao entregar as cartas, percebe a predominância de cartas femininas e começa a ler poemas de Pablo, e o chama de ‘o poeta do amor’. Seu chefe repreende Mário e chama Neruda de poeta do povo, pela sua vocação comunista e política.
Para notar um pouco da presença e importância das metáforas dentro da história, há um trecho em que a mãe de Beatrice, aborrecida de que sua filha esteja sendo cantada por Mário, decide tirar satisfações com Neruda (uma típica italianona, cheia de trejeitos e sotaque típico):
“– Tenho algo muito sério a dizer ao senhor!
– Do que se trata, minha senhora?
– Já faz alguns meses que esse Mário rodeia minha estalagem. Este senhor anda de gracinhas com minha filha.
– Que foi que disse a ela?
– Metáforas.”
“- A minha pobre Beatriz está se consumindo toda por esse carteiro. Um homem cujo único capital são os fungos entre os dedos dos pés cansados. Mas se os pés fervem de micróbios, sua boca tem o frescor de uma alface e se enreda como uma alga. E o mais grave, dom Pablo, é que as metáforas para seduzir minha menininha ele copiou descaradamente de seus livros.”
Pablo vai repreender Mário por ter pego um de seus poemas e posto como seu, dizendo: “– Não senhor! Uma coisa é eu ter dado de presente a você um par de meus livros, e outra bem distinta é que eu tenha autorizado você a plagiá-los. Além do mais, você deu a ela o poema que eu escrevi para Matilde. Porém ouve de Mário, seu fiel pupilo, uma das frases mais marcante dentro da poesia: A poesia não pertence a quem a escreve, mas àqueles que precisam dela!
Com esta frase, ensinada por Neruda, Mário nos mostra que a amizade entre duas personagens socialmente diferentes, até em termos de formação, é um dos motores da narrativa, e torna os diálogos riquíssimos. É muito fácil se identificar com Mário, é como se nós estivéssemos ao lado do grande Neruda. O filme é uma obra prima repleta de significados, de signos verbais e não verbais: a música, a paisagem, a poesia, o amor, aprendizado, a amizade e outros tantos. O carteiro e o poeta é um filme leve, profundo, que nos conecta com a simplicidade e beleza da vida.
Curiosidades:
O ator e roteirista Massimo Troisi (Mário Ruoppolo) adiou uma cirurgia cardíaca para poder completar o filme. No dia seguinte ao término das filmagens, ele sofreu um ataque cardíaco e morreu. Ele não viu a estreia e o sucesso do filme.
VIDA
Você terá que aprender que
a vida só dá asas a quem
não tem medo de cair.
A vida é muito curta para esperar.
Faça acontecer.
O segredo da vida não é ter tudo
que você quer,
mas amar tudo que você tem!
(Pablo Neruda)
FILO
Escrevo para assim viver
E vivendo, assim perduro
Mesmo doente, eu escrevo
Pois, escrevendo, me curo.
(Jorge A. M. Maia)