Lula não falou nada de extraordinário, aliás, sequer foi brilhante como em outras oportunidades quando o improviso cedeu lugar ao discurso medido, capaz de empolgar figuras como Barack Obama. A manifestação de Lula foi de um político sem ritmo de jogo, mas que todos sabem, pelo trato com a plateia, que já jogou muito e, se treinado novamente, pode ser um atleta de alta performance. Foi bem singelo e pontual em seu comportamento e manifestação: usou máscara, afinal a pandemia recomenda, falou da necessidade de uma coordenação nacional da pandemia, da vacina como prioridade, elogiou o SUS, falou de políticas públicas para evitar o caos social, de privatização, de liberdade de imprensa, de um pacto nacional e desconversou sobre sua candidatura.
No entanto, a fala de Lula – mesmo sem o brilho de seus grandes dias – feriu como uma navalha o presidente Bolsonaro. Como um balde água fria em quem está dormindo, o discurso de Lula pós-inelegibilidade, tirou Bolsonaro da cama e lhe impôs reações repentinas. Na primeira aparição pública, juntamente com seus assessores, pareceu desconfortavelmente de máscara, falando de vacina, programas sociais e outras pautas, como se estivesse se assenhoreando das agendas de seu principal adversário. Claro que tudo pareceu tão artificial quanto sua imagem de máscara. Mas foi o que podia fazer. Bolsonaro sentiu que uma coisa é brigar com Lula inelegível e outra é enfrentá-lo como adversário de urna.
Na última eleição, Bolsonaro se deu ao luxo de não comparecer em debates, tatame no qual é um péssimo lutador. Todavia, sem Lula na disputa, essa era uma estratégia possível. Agora o cenário é diferente. Bolsonaro vai ter que esquecer o formato de seu diálogo com o eleitor, composto por uma mesa e um amontoado de papéis, no qual a prática do bullying com adversários é contumaz. Vai ter que melhorar muito, debatendo agendas e pautas com profundidade, o que lhe imporá a dedicação de um razoável tempo. Do outro lado estará Lula, com seu afinado discurso populista, mas recheado de apurado conhecimento ideológico. Para Bolsonaro é ou vai ou racha, não servirá discurso, como diria seu filho Eduardo, mequetrefe. Terá que estudar com profundidade as pautas da direita e usar muita, mas muita máscara. Esse será seu desafio.
Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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